O livro "Cristãos
em busca de êxtase" (Unaspress) é uma excelente pesquisa histórica e
contém informação preciosa nesses dias de explosão neo-pentecostal.
No entanto,
na parte bíblica do livro há uma argumentação que destoa do bom nível da
pesquisa. A análise bíblica que o autor faz da música sacra contém falhas,
especialmente ao usar o episódio do transporte da arca como uma revelação
normativa para a música cristã. Trechos do livro estão disponíveis na net em
forma de artigos e o leitor pode encontrá-los facilmente.
Resumindo a idéia
de Dorneles: quando Davi transportou a arca ao som de tambores, tudo deu
errado, e Uzá morreu. Quando Davi excluiu os tambores, tudo deu certo. E,
segundo ele, após esse episódio, o tambor foi excluído do templo.
Ele escreveu que “o
tambor não fazia parte da música do templo, por orientação do próprio Deus a
Davi.” E acrescentou que “a exclusão do tambor no templo pode indicar também
que esse instrumento (...) deveria estar fora do culto”.
Ele sugere que Deus
orientou não ter tambores, ou seja, Deus orientou a “exclusão do tambor” e que
por causa dessa orientação divina, tambores deveriam “estar fora do culto” e
“sem recomendação”. Apesar de não afirmar claramente que “Deus proibiu os
tambores”, há uma “proibição” implícita nos argumentos de Dorneles.
A seguir, algumas
observações sobre a argumentação dele.
1) Dorneles
coloca erradamente a culpa nos tambores
Fazendo
essa contraposição entre “com tambores deu errado” e “sem tambores deu certo”,
Dorneles leva os leitores a concluírem exatamente isso: a culpa foi dos
tambores. Se ele não teve essa intenção, toda a sua argumentação foi inútil
para qualquer outro propósito, visto que ele destaca apenas os tambores e
ignora outros elementos da narrativa.
O equívoco de
Dorneles aqui é básico: nem a Bíblia nem Ellen White sugerem que o problema do
primeiro transporte teve algo a ver com tambores. O problema foi a “violação de
um mandado explícito”, foi desobedecer às claras instruções divinas quanto ao
transporte da arca (Êx.25:14, Nm.4:15, 7:9 e 10:21).
Nem a Bíblia e nem
Ellen White tocam na questão da música ou do uso de instrumentos musicais como
sendo a causa da morte de Uzá. Segundo White, “houve uma desatenção direta e
indesculpável às determinações do Senhor.” Nada sobre a questão musical.
Ela acrescenta que
“o Senhor não podia aceitar o serviço, porque não era efetuado de acordo com
Suas orientações”, mas novamente não cita a música. Ela não inclui a música
entre a “declaração compreensível da vontade de Deus em todas estas questões”
cuja negligência “desonrava a Deus”. E, finalmente, Ellen White afirma que Davi
foi “levado a compenetrar-se, como nunca dantes, da santidade da lei de Deus, e
da necessidade de obediência estrita”(Patriarcas e Profetas, 705 e
706). De novo, nada sobre a música.
Ao extrair
homileticamente uma "lição musical" desse episódio (que é possível),
parece que Dorneles viu algo que a Bíblia não mostrou, e que Ellen White também
não viu. É um equívoco usar o transporte da arca para reprovar o uso de certos
instrumentos musicais, pois a Bíblia simplesmente não diz isso.
2) A
argumentação de Dorneles serve para condenar a flauta também.
Curiosamente, podemos
substituir “tambor” por“flauta” em
quase toda argumentação de Dorneles sem prejuízo para a sua linha de raciocínio
e sem ferir os textos bíblicos usados. Veja:
“Na condução da
arca de Quiriate-Jearim até a casa de Obede-Edom, houve música com flautas (1Cr
13:8 e 2Sm 6:5). Nessa viagem, tudo deu errado.
“Três meses depois,
Davi juntou o povo para buscar a arca da casa de Obede-Edom. Houve alegria, mas
ao contrário da primeira tentativa, desta vez a orquestra não teve flautas, mas
harpas, alaúdes e címbalos (1Cr 15:16). O transporte deu certo.”
E então? A culpa é
dos tambores ou das flautas? E ainda há outros parágrafos:
“A lista dos
‘instrumentos do Senhor’ aparece em diversas ocasiões, sempre sem inclusão das flautas (ver
1Crônicas 25:1 e 6, 16:5, 2Crônicas 5:12 e 13).”
“A música que se
fez no transporte da arca até Jerusalém, sem uso de flautas, foi
chamada de "música de Deus" (1Crônicas 16:41 e 42), enquanto que a
banda que deu o ritmo da dança, quando Uzá morreu, não recebeu essa adjetivação
(ver 1Crônicas 13:8).”
“No livro de
Isaías, há juízos pronunciados contra pessoas que celebravam festas com
embriaguez e música com flautas (ver
Isaías 5:12).”
E a conclusão
parafraseada também seria: “o textos de Isaías 5:12 e os fatos relacionados com
o transporte da arca e com a música do templo deixam esse instrumento sem
recomendação.”
Os flautistas
precisam ser alertados disso, urgentemente! Mas estranhamente, parece que
Dorneles ainda não escreveu nada contra as flautas.
3) A
argumentação de Dorneles é favorável à dança
Dorneles
divide o transporte da arca em 2 tentativas, destacando dois pontos:
1) a primeira teve
dança e tambor, e deu errado.
2) a segunda não
teve tambor, e deu certo.
Nas palavras do
autor:
"Na condução
da arca de Quiriate-Jearim até a casa de Obede-Edom, houve música com tamboris
e Davi dançou e se alegrou, ao ritmo da banda (1Crônicas 13:8 e 2Samuel 6:5).
Nessa viagem, tudo deu errado."
Mas de acordo com 2
Sm 6:14, Davi dançou na segunda parte do transporte (da casa de Obede-Edom até
Jerusalém). Isso compromete o raciocínio do autor. Se na segunda parte a viagem
foi abençoada por Deus, então isso coloca a dança de Davi sob a iluminação
divina, pois o transporte deu certo.
Dorneles escreveu:
"Três meses depois, Davi juntou o povo para buscar a arca da casa de
Obede-Edom. Desta vez, ele orientou que ninguém conduziria a arca, senão os
levitas (1Samuel 15:2). Houve alegria, mas ao contrário da primeira tentativa,
desta vez a orquestra não teve tambor, mas harpas, alaúdes e címbalos
(1Crônicas 15:16). O transporte deu certo."
Não teve tambor,
mas teve dança. Se o autor vincula o "dar certo" com a ausência de
tambores, alguém poderia usar o mesmo argumento e vinculá-lo à presença da
dança. Logo, o mesmo argumento que bane o tambor, consegue mais do que pretendia
e acaba sacralizando a dança.
Algumas versões da
Bíblia não registram “dança” durante o trajeto em que Uzá morreu (de
Quireate-Jearim até Obede-Edom) mas usam o verbo “alegrar-se”. Questionado sobre isso, Dorneles responde
que o verbo usado na primeira tentativa, em 2 Sm 6:5 (sachaq), pode ser
traduzido como “dançar”. Para ele, na primeira tentativa houve tambores e dança
(sachaq), e o transporte deu errado.
Mas isso só gera
mais problemas para a teoria de Dorneles. Ao ser repreendido por Mical, Davi
responde dizendo que faria de novo (2 Sm 6:21), e ele usa a mesma palavra de 2
Sm 6:5 e 1 Cr 13:8 (sachaq).
Resumindo: usando a
tradução preferida de Dorneles, Davi “dançou” (sachaq) na primeira tentativa,
“dançou” na segunda, e ainda afirmou que “dançaria” (sachaq) de novo:
“Pois eu continuarei a dançar em
louvor ao SENHOR”. (2 Sm 6:21) NTLH
“foi perante Senhor
que dancei; e perante ele ainda hei de dançar". Almeida Atualizada
“yo danzaré ante
Yahveh”. Bíblia de Jerusalém (1976)
“therefore I will
play, and dance before
the Lord.” Septuaginta.
Se nesse episódio
houve de fato um “reforma musical” promovida por Davi, parece que o próprio
Davi não entendeu direito. Ou então, a ordem de Deus teria sido: “tirem os
tambores e comecem a dançar!” De qualquer forma, a argumentação de Dorneles não
faz sentido.
Dorneles afirma que
“a questão que procurei mostrar no meu texto é a mudança da
música do primeiro para o segundo transporte. Essa mudança certamente
foi resultado o mandato de Deus a Davi (...)”.
Então, a mudança
não foi tanto musical, pois além de Davi dançar e afirmar que continuaria
dançando, Ellen White descreve assim o segundo trajeto:
“Outra vez pôs-se
em movimento o longo séquito, e a música de harpas e cornetas, trombetas e
címbalos, ressoava em direção ao céu, misturada com a melodia de muitas vozes.
"E Davi saltava. ... diante do Senhor" (II Sam. 6:14), acompanhando
em sua alegria o ritmo do cântico.”
A dança de Davi
acompanhava o ritmo. Era “música e dança, em jubiloso louvor a Deus”. Quando
artculistas dizem a música do segundo trajeto foi "branda",
"suave", "menos ritmada", trata-se de especulação,
imaginação e inferência. O fato é que Davi dançou acompanhando o ritmo da
música e depois ainda afirmou que continuaria dançando. Isso coloca uma
interrogação na teoria da suposta “reforma musical que excluiu os tambores”.
4) A
descrição de Dorneles é diferente da descrição de Ellen White
Ellen
White não descreve o primeiro transporte da arca em tons negativos como
Dorneles o faz. Inclusive quando fala da música.
Sobre a música do
segundo transporte da arca, Dorneles diz: “Embora informe que Davi tenha
dançado (1Cr 15:29), o cronista repete várias vezes a lista de instrumentos,
que não sugere uma música feita para dançar.”
Talvez a música não
tenha sido feita para dançar, mas provocou dança, e Davi dançou seguindo o
ritmo da música, como diz Ellen White: Davi estava “acompanhando em sua alegria
o ritmo do cântico”. Se ele acompanhava o ritmo, o andamento da banda, era
porque a música era propícia para isso.
Falando sobre o
fatídico 1º trajeto, Ellen White diz: “era seu intuito tornar aquele ato um
espetáculo de grande regozijo e imponente manifestação.” Não era uma multidão
seguindo um trio elétrico de carnaval. Ellen White diz que “Davi estava
radiante de santo zelo.”
Ao contrário de
Dorneles, ao falar da música do primeiro transporte, Ellen White não usa
expressões negativas. Ela descreve essa música como “cânticos de regozijo,
unindo-se melodiosamente uma multidão de vozes com o som de instrumentos
músicos”. Era “uma cena de triunfo”, com “alegria solene”(Patriarcas e Profetas, 704).
As palavras "melodiosamente" e "solene" devem ser destacadas.
Agora veja como
Dorneles faz uma leitura tendenciosamente negativa da música do episódio:
"A música que
se fez no transporte da arca até Jerusalém, sem uso de tambores, foi chamada de
"música de Deus" (1Crônicas 16:41 e 42), enquanto que a banda que deu
o ritmo da dança, quando Uzá morreu, não recebeu essa adjetivação (ver
1Crônicas 13:8)."
No entanto, levando
em conta a informação bíblica e de Ellen White, esse parágrafo acima poderia
ser reescrito assim:
“A música que deu o ritmo da dança de Davi, sem flautas, foi
chamada de “música de Deus” (1Crônicas 16:41 e 42), enquanto que a banda que
acompanhou a “cena de triunfo”, "melodiosamente" com “alegria solene”, quando Uzá morreu, não recebeu essa adjetivação (ver
1Crônicas 13:8)."
Esse parágrafo está
perfeito, segundo a Bíblia e Ellen White, e tem um tom diametralmente oposto ao
que Dorneles escreveu. Percebam como a argumentação de Dorneles é frágil e
depende de contorcionismos linguísticos, mensagens nas entrelinhas, jogo de
palavras, omissão de trechos (que é o próximo item).
5) Dorneles
omite pedaços de textos bíblicos
Além
de omitir as flautas em sua argumentação contra os tambores, Dorneles faz
citações estranhas, amputadas, para dar uma impressão de que a Bíblia condena
apenas os tambores. Por exemplo, ele escreveu:
“No livro de
Isaías, há juízos pronunciados contra pessoas que celebravam festas com
embriaguez e música com tambores (ver
Isaías 5:12 e 24:8 e 9).”
E completa dizendo
que “os textos de Isaías 5:12 e 24:8 e 9 e os fatos relacionados com o
transporte da arca e com a música do templo deixam esse instrumento sem
recomendação.”
O problema é que
esses textos também falam de harpas, alaúdes e flautas. Por que extrair
cirurgicamente apenas os tambores, dando-lhes uma conotação negativa? Veja os
textos bíblicos na íntegra:
“Harpas e liras,
tamborins, flautas e vinho
há em suas festas, mas não se importam com os atos do Senhor, nem atentam para
obra que as suas mãos realizam.” (Is 5:12)
“O som festivo dos
tamborins foi silenciado, o barulho dos que se alegram parou, a harpacheia
de júbilo está muda. Já não bebem vinho entoando canções; a bebida fermentada é
amarga para os que a bebem.” (Is 24:8-9)
Os leitores menos
atentos e não-bereanos são induzidos por Dorneles a concluir que Deus está
pronunciando juízos apenas contra quem usa tambores, o que não é verdade. A menos
que Dorneles também esteja publicando textos contra esses outros instrumentos
por aí, o que não é o caso, essa é uma péssima maneira de usar a Bíblia.
6) Dorneles usa
o templo judaico como normativo para o culto cristão
Ele escreveu:
“O estudo dos
textos bíblicos que citam os instrumentos musicais esclarece que o tambor não
fazia parte da música do templo, por orientação do próprio Deus a Davi.”
Por orientação do
próprio Deus, não entravam no templo várias outras coisas: mulheres, crianças,
estrangeiros, aleijados, etc. A pergunta que devemos responder é: o templo é o
nosso modelo de culto e música cristãos? Dorneles acha que sim:
“Uma vez que o
templo de Israel era uma representação do santuário celestial e do trono de
Deus, a música na igreja hoje deve ter sua referência maior na música usada
nesse templo.”
Já é bem comum o
argumento “se não tinha no templo de Jerusalém, não podemos usar na igreja”. Na
realidade, ao mirar na percussão, esse argumento atinge quase todos os
instrumentos atuais.
O palestrante Daniel Spencer resume essa teoria, dizendo que “nosso Templos são cópias das
igrejas primitivas, cópias das sinagogas, cópias do templo de Salomão, cópia do
santuário, cópia do santuário do céu.” Mas isso também não é verdade e uma
simples comparação do propósito e da liturgia do templo judaico com o culto
cristão revela o equívoco.
Nosso culto não tem
muita coisa a ver com o modelo de culto primitivo (nas casas). O culto da
igreja primitiva até se assemelhava em certos aspectos às reuniões da sinagoga.
Mas a sinagoga e o templo apresentam profundas e marcantes diferenças entre si.
A começar pela principal atividade do templo: o sacrifício. Além disso, em
vários aspectos a sinagoga não tem absolutamente nada a ver com o templo
(participação de leigos, mulheres, gentios, leitura e explicação da Palavra,
etc).
Bastaria um exemplo
pra expor o equívoco desse argumento: Não havia pregação no templo, e nosso
culto hoje é centralizado na pregação.
O ministério
levítico, inclusive o musical, era cerimonial, conectado aos sacrifícios e
ofertas, E remunerado. Não é um modelo a ser estritamente seguido, mas dele
podemos extrair princípios. O próprio Bacchiocchi, que já defendia muitas
dessas idéias agora expostas por Dorneles, menciona esse caráter cerimonial da
música do templo em:
“O livro de
Crônicas apresenta o ministério musical dos levitas como parte da apresentação
da oferta diária no templo." (O
cristão e a música rock, 205)
Nos textos onde
cita o templo judaico, Ellen White não traça paralelos literais com a igreja.
Ela extrai princípios de adoração e não listas inflexíveis de instrumentos. “Da
santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem aprender como
considerar o lugar onde o Senhor Se propõe encontrar-Se com Seu povo" (Testemunhos Seletos, vol.
2, 193). Nesse texto, ela usa a santidade do templo para extrair um princípio
para o culto cristão: a reverência.
7) Dorneles
usa a regra do “não Está Escrito aqui, então está proibido”
Dorneles
transforma uma lista de instrumentos que não inclui os tambores numa
“proibição” aos tambores. A ausência dos tambores na lista de instrumentos do
templo é entendida como uma proibição divina aos mesmos. No entanto, isso é um
desrespeito ao princípio reformado “tota
scriptura” de interpretação, já que os salmos claramente
incentivam o uso de tambores.
Não existe em parte
alguma da Bíblia a proibição “não usem tambores”. É uma proibição inferida,
imaginada a partir da tal lista. Mas existem vários textos com o incentivo
“usem tambores” no próprio hinário do Templo (Salmos)! Assim, textos claros
deveriam ter a precedência sobre textos obscuros. Não há nenhuma explicação
para essa lista ter prioridade sobre os outros inúmeros textos claros.
E Dorneles fica
devendo uma explicação sobre que tipo de raciocínio ele utilizou para conseguir
igualar uma “não menção” a uma "proibição". Os guardadores do domingo
amariam essa explicação: eles insistem que a “não menção” ao mandamento do
sábado no Novo Testamento representa uma invalidação do mesmo. Estaria Dorneles
vendo inteligência nesse horroroso argumento anti-sábado?
Dorneles escreveu posteriormente: “E isso fica tão
claro para Israel que ao longo de mais de 500 anos, a lista é repetida em
diversos textos (I Crônicas 15:16, 19-24, 28, 16:5, 42, 23:5, 25:1, 6, II
Crônicas 5:12-13, 29:25-27, Neemias 12:27, Isaías 39:20). A lista é
consistente, não havendo qualquer relevante alteração entre os textos.”
Vamos analisar
essas tais listas :
1 Cr 15:16 - alaúde, harpa, címbalo. Aqui Deus “proibiu” a trombeta e o shofar.
1 Cr 15:19-24 - alaúde, harpa, címbalo, trombeta. Aqui Deus “proibiu”
só o shofar.
1 Cr 15:28 – shofar, alaúde, harpa, címbalo, trombeta. Aqui, meio indeciso, Deus permitiu a volta da
trombeta e do shofar.
1 Cr 16:5 – alaúde, harpa, címbalo. Após ter
permitido, Deus muda de idéia e “proíbe” a trombeta e o shofar novamente.
1 Cr 16:42 – trombeta, címbalo e kliy shiyr (outros instrumentos musicais). Se o v.5 e o
v.42 representam uma lista só, menciona “outros instrumentos” além desses, e a
lista não é consustente. Se são duas listas, elas não seguem um padrão, por
isso também não é consistente.
1 Cr 23:5 – não
lista instrumentos específicos.
1 Cr 25:1 – alaúde, harpa, címbalo. Deus
“proibiu” a trombeta e o shofar.
1 Cr 25:6 - alaúde, harpa, címbalo. Deus
“proibiu” a trombeta e o shofar.
2 Cr 5:12-13 - alaúde, harpa, címbalo, trombeta e kliy shiyr (outros instrumentos musicais). Mais uma vez, a
lista não segue um padrão consistente e inclui “outros instrumentos”.
2 Cr 29:25-27 - alaúde, harpa, címbalo, trombeta. Deus
“proibiu” só o shofar.
Ne 12:27 – alaúde, harpa, címbalo. Deus “proibiu” a
trombeta e o shofar.
Is 39:20 – não
existe esse texto
Acrescentamos:
2 Cr 20:28 - alaúde, harpa, trombeta. Deus
“proibiu” o címbalo e o shofar.
Ed 3:10 - címbalo e trombeta. Aqui, Deus “proibiu” o alaúde, harpa e o shofar.
Ao contrário do que
Dorneles afirma, a lista não é tão consistente e há sim relevantes alterações
entre os textos. Se a teoria do “não está escrito, então está proibido” estiver
correta, ela mostra que Deus estava indeciso e não sabia se queria mesmo autorizar
ou proibir, afinal..
E se consultássemos
os especialistas (salmistas)? A citação de instrumentos na adoração nos Salmos
é riquíssima:
Trombetas (Sl 98:6), Shofar (Sl 98:6), Harpa (Sl 43:4; 98:5), Percussão (Sl 81:2; 149:3),Flauta (título do Salmo 5), Alaúde (Sl 71:22), etc.
Se houve de fato
uma “proibição” divina ao uso de instrumentos, os salmistas aparentemente
desconheciam ou a desobedeceram, pois incentivam o uso de uma gama enorme de
instrumentos. É mais correto pensar que tal “proibição divina” a instrumentos
de percussão nunca existiu.
8) Dorneles usa
o argumento “os salmistas ainda não tinha luz”
Para confirmar e
esclarecer as teorias de seu livro, Dorneles lançou um artigo chamado "O canto do Senhor". Nele, ele escreve
sobre o Salmo 150:
“quando fala de
como louvar, Davi naturalmente expressa a compreensão do louvor a Deus daquela
fase de sua vida. A experiência do templo agregou mais luz a essa compreensão.”
Dorneles supõe que
ao incentivar o uso de tambores, Davi ainda não tinha luz (conhecimento
revelado) sobre o assunto. Dorneles não faz essa suposição baseado na Bíblia,
mas num salmo apócrifo (veja próximo tópico).
Não cremos em
inspiração verbal, mas acontece que essa proposta de Dorneles é semelhante à
dos que adotam o método histórico-crítico de interpretação bíblica. Quer dizer
que os compiladores dos Salmos não foram dirigidos pelo Espírito Santo,
compilando para todas as gerações posteriores algo que apóia o que Deus
supostamente já havia proibido? Os compiladores posteriores dos Salmos não
repararam na letra dos Salmos “sem luz” que incentivam o uso da percussão?
Um outro autor,
Gilberto Theiss, escreveu sobre o Salmo 150: “provavelmente, tenha sido escrito
em um momento histórico da vida de Israel onde não havia ainda uma clara
instrução divina acerca da forma apropriada para a adoração litúrgica”.
Isso é grave, pois
uma afirmação desse porte está á beira de negar a inspiração plenária das
Escrituras. Em quais partes dos Salmos ou da Bíblia como um todo poderíamos
confiar, então? Não há nenhuma indicação bíblica de que o argumento da “falta
de luz” seja verdadeiro. Há bastante instrução litúrgica na Torah. O autor do
Salmo 150, bem como do 149, do 81, etc foram divinamente inspirados e não houve
nenhuma correção posterior ou contradição do que eles escreveram sobre
percussão.
Concordando com
Dorneles, Gilberto Theiss, escreveu: “No tocante à adoração musical, o povo
progressivamente foi abandonando os velhos costumes egípcios. Entre esses
costumes que foram abandonados, destacamos as danças e o uso de tambores.”
A Escola dos
Profetas (onde os alunos usavam percussão), os Salmos e textos bíblicos e
rabínicos que falam claramente da percussão e da dança em celebrações
religiosas refutam isso. Os hebreus usavam percussão e continuam usando. Os
hebreus dançavam e os judeus modernos continuam dançando. Não precisamos
distorcer textos e reescrever fatos históricos apenas para combatermos a dança.
Existem outros argumentos para isso.
Além disso, o
argumento da “falta de luz” também atinge as Escolas de Profetas. Deus criou
uma instituição que ensinava música sacra com tambores. Talvez, o próprio Deus
não tivesse luz sobre a música ideal ainda... Um pensamento absurdo.
O argumento da
“falta de luz” gera um blackout...
9) Dorneles
confundiu o Salmo 150 com o Salmo 151 (apócrifo)
Para
dar força ao argumento da “falta de luz”, Dorneles comete uma gafe incrível no
artigo“O canto do Senhor”. Para comprovar que o incentivo ao uso de tambores do Salmo
150 foi escrito antes da tal “reforma musical” de Davi, ele cita um comentário
a respeito de um salmo que não existe na Bíblia!
Ele diz:
“Entre outras
fontes de especialistas, a publicação The Septuagint Version (Zondervan:
Grand Rapids, MI), diz que o Salmo 150 é “um salmo genuíno de Davi, composto
quando ele venceu o combate com Golias”. Nesse caso, quando fala de como
louvar, Davi naturalmente expressa a compreensão do louvor a Deus daquela fase
de sua vida. A experiência do templo agregou mais luz a essa compreensão.”
Antes de tudo,
seria importante saber quais são essas “outras fontes de especialistas”.
Suspeito que isso seja apenas um recurso retórico para dar um falso peso
acadêmico à bobagem que vem logo depois: a citação do apócrifo Salmo 151,
presente na Septuaginta, que nada tem a ver com o Salmo 150.
Dorneles usa a
versão Septuaginta para afirmar que o Salmo 150 é “um salmo genuíno de Davi,
composto quando ele venceu o combate com Golias”, mas a Septuaginta traz isso
no Salmo 151 (nao-inspirado) e não no 150.
Para ler o Salmo
151 on-line:
Em grego: http://www.septuagint.org/LXX/Psalms/151
Em inglês: http://ecmarsh.com/lxx/Psalms/index.htm
O que tem a ver um
Salmo com o outro? Nada. Um é apócrifo, o outro é inspirado. Um traz
informações sobre a data de sua composição, o outro não. Claramente Dorneles
não percebeu que estava analisando o salmo errado. Até agora não encontramos
nenhum esclarecimento ou errata de sua parte. Enquanto isso, o equívoco se
alastra pela internet.
(O site Advir
retirou o texto do ar, e o site musicaeadoracao apenas suprimiu esse trecho,
mas manteve a argumentação sem divulgar nota esclarecedora)
10) Dorneles
coloca os salmistas em desobediência
“Naquele dia, foi
que Davi encarregou, pela primeira vez, a Asafe e a seus irmãos de celebrarem
com hinos ao Senhor” (1Cr 16:7).
Asafe, que
participou do transporte da arca e assumiu a liderança da música após isso,
escreveu: “Comecem o louvor, façam ressoar o tamborim,
toquem a lira e a harpa melodiosa." (Sl 81:2)
Asafe, um grande
mestre da música em Israel, desconhecia a tal “reforma musical” que
supostamente teria proibido os tambores. E é difícil conciliar a argumentação
de Dorneles com o título do Salmo 5: “Ao mestre de canto, para flautas.
Salmo de Davi.”
O compositor
deveria acrescentar ao título: “eu não tinha luz quando fiz isso”, já que o
acompanhamento deveria ser com flautas. No mínimo, os compiladores deveriam ter
tomado alguma providência.
11) Dorneles
usa a falácia da “falsa analogia”
Ele compara o uso
de instrumentos musicais a costumes inadequados, como o uso de bebida forte, a
poligamia e a escravidão:
“Da mesma forma que
a revelação posterior, corroborada por estudo e reflexão, iluminou esses fatos
que aos poucos foram sendo eliminados, a questão da música também deve ser
objeto de estudo para compreensão e juízo acertados.”
A sutileza do erro
aqui consiste em comparar coisas incomparáveis. Os costumes inadequados citados
foram claramente corrigidos pelo Senhor. Através de claros preceitos e exemplos,
vemos claramente Deus corrigindo as questões da bebida forte, da poligamia e da
escravidão (essa, mais sutilmente). Para cada uma dessas práticas errôneas,
temos um “Assim diz o Senhor” em sentido contrário.
Isso não acontece
com a música como Dorneles acha que aconteceu: uma reforma musical divinamente
instruída que baniu instrumentos da adoração e que seria aplicável ainda hoje.
Dorneles compara correções claramente presentes na Bíblia com uma suposta
correção imaginada.
Onde está essa
"revelação posterior, corroborada por estudo e reflexão" no caso da
música?
No mínimo, deveria
ficar biblicamente evidenciado que a ordem bíblica contrária aos tambores é tão
clara e direta quanto a ordem bíblica contrária à bebida forte ou à poligamia.
Do contrário, incorre-se aí na falácia da falsa analogia.
12) A discussão
"dentro do templo x fora do templo"
A questão “Dentro x
Fora do Templo” aparece no livro e nos artigos de Dorneles disponibilizados na
net. O argumento é: "os hebreus até usavam tambores em momentos de
adoração, mas fora do
templo, por isso não devemos usá-los dentro das
igrejas. Tambores não entraram no templo e não devem entrar na igreja!"
Creio que esse
argumento merece ser analisado mais criticamente. Não adoramos no Templo e,
incrivelmente, nem temos o Templo como nosso modelo de práticas de culto.
Qualquer culto cristão, seja ele feito num prédio ou debaixo de uma árvore, é
“fora do templo”. Casas cristãs de culto não são “templos judaicos”.
Nossas casas de
culto, que chamamos de “igreja”, não são “o Templo de hoje”. E nossa liturgia
tem pouco a ver com a liturgia do Templo (com exceção dos princípios).
Muitas coisas
deixaram de entrar no serviço do Templo [crianças, mulheres, gentios] mas nem
por isso sua ausência deve servir de "padrão" para hoje. Por que
então se singulariza a suposta ausência dos tambores e se omite a confirmada ausência
de outros elementos?
Qual o princípio
por trás da ausência das crianças no serviço do Primeiro Templo, por exemplo?
Aplicando-se o método de interpretação de Dorneles, deveríamos deixar as
crianças fora da igreja, pois não entravam no templo.
Isso mostra que o
raciocínio "se tambores não entraram no templo judaico, não devem entrar
na igreja" é discutível, pois a estreita comparação
"templo-igreja" é discutível. O que mais não entrava no templo
judaico? Eu não poderia entrar, por ser mulher. E provavelmente você, leitor,
também não, por ser gentio.
Uma vez, Paulo foi
condenado pelos judeus sob a falsa acusação de ter levado um efésio chamado
Trófimo para dentro do templo, além do espaço permitido aos gentios (At
21:28,29).
28 "-
clamando: Varões israelitas, acudi; este é o homem que por toda parte ensina a
todos contra o povo, contra a lei, e contra este lugar; e ainda, além disso, introduziu gregos no templo, e tem profanado
este santo lugar.
29 - Porque tinham
visto com ele na cidade a Trófimo de Éfeso, e pensavam que Paulo o introduzira no templo."
Se Dorneles
estivesse certo, o discurso dos judeus seria aplicável até hoje, e cenas como
essa deveriam se repetir a cada sábado nos “templos”.
Outro problema é
que a adoração bíblica não se restringia ao que acontecia no Templo. Apesar de
ser o centro de adoração por excelência, o templo não representava toda a
experiência de adoração do povo de Israel. O que se fazia no Templo tinha sua
função, mas fora do Templo o povo adorava a Deus em cultos genuínos, com vários
instrumentos e sob a aprovação divina.
Ellen White
classifica como “culto” e “louvor” várias cenas de adoração fora do templo. Ela
chama de “culto”, por exemplo, a música feita pelos profetas (ao ar livre) em 1
Sm 10:5 (Patriarcas e Profetas, 610).
E a ironia é: o
transporte da arca, o evento que marcou a suposta "reforma musical",
aconteceu ao ar livre! Assim, a discussão "dentro x fora do templo"
perde muito o seu sentido.
Conclusão
O livro "Cristãos em busca do êxtase" é um excelente levantamento histórico
do carismatismo e do pentecostalismo. Também faz uma ótima análise do papel da
música nesse processo. No entanto, ao usar a Bíblia para analisar a música
sacra, o autor apenas fez eco a argumentos usados contra a música contemporânea
já fartamente refutados.
É hora de levarmos
a discussão sobre música e adoração a um outro nível, mais alto, mais
comprometido com a Bíblia. Grande parte das publicações sobre música começam
afirmando que isso não é uma “questão de gosto”, que devemos saber a “vontade
de Deus”. No entanto, após essa introdução bem-intencionada, os autores passam
a expor suas opiniões pessoais costuradas com versos citados pela metade,
descontextualizados, mal compreendidos e mal aplicados.
É incrível como a
discussão sobre música parece ocorrer numa dimensão paralela, num universo onde
a exegese é tosca, ilógica e a Bíblia é pisoteada. Ao adentrar nessa discussão,
precisamos manter o mesmo nível, seguir as mesmas regras de interpretação
bíblica que usamos em outros assuntos. Infelizmente, os artigos de Dorneles (um
deles é parte de um capítulo de seu livro) não contribuíram para isso.
Por Vanessa Meira.