Para entender este post é
preciso reler, pensando no evento, Romanos 14
Para atualizar quem está passando por aqui, nesta quarta
feira, 8 de julho, depois de anos de discussão (sadia e respeitosa), de
pesquisas teológicas e de procedimentos administrativos, a Igreja Adventista do
Sétimo Dia (IASD), em reunião mundial, tomou uma decisão polêmica e histórica
tão importante, que chegou a ser noticiada nos grandes meios seculares, como
por exemplo o “Washington Post[1]”.
De 02 a 11 de julho, cerca de 7000 adventistas estão reunidos em San Antonio,
Texas, EUA, representando os mais de dezoito milhões de membros da IASD
presente em mais de duzentos países. Trata-se de uma reunião mundial que
acontece a cada cinco anos para revisões de decisões administrativas,
devocionais e doutrinárias[2].
E ontem, cerca de 2500 delegados discutiram, por várias horas, durante a manhã
e a tarde, a deliberação de um voto que tomaram no final da discussão. “Por
1.381 votos contra 977, os delegados presentes” votaram que a igreja não
ordenará mulheres ao ministério[3].
O silêncio que imperou-se no autidório no começo da manhã demonstrou que tudo
foi muito solene, e o louvor cantado no fim da tarde durante a apuração dos
votos demonstrou que tudo foi muito inspirador.
Eu era a favor
pela ordenação da mulher e queria ver o “sim” no resultado da votação da
conferência geral, até ontem pela manhã. Mas ontem, depois que passei o dia
inteiro ouvindo os comentários dos delegados a favor e contra, bem como as
perguntas, mudei de opinião.
Abaixo, explico o porquê.
Ontem, bem como antes, eu não vi uma teologia da ordenação
da mulher. Eu vi uma sociologia da ordenação da mulher. Era interessante. Cada
vez que um delegado ia falar, antes que fosse apresentada a opinião dele, a
gente já sabia se era “sim” ou “não”, apenas por perceber seu lugar de origem.
Por exemplo, se era da América do Norte, “sim”, se era da África, “não”, com
suas exceções, é claro. Uê, será que Deus teria duas teologias, ou mais, uma
para cada território? Veja os documentos “teológicos” de cada divisão. Quatro
recomendam um "Não". Cinco recomendam um "Sim". E quatro
ficam em cima do muro, deixando claro que apoiariam tanto o "Não"
quanto o "Sim"[4].
Ou será que um povo, raça, ou nação tem mais capacidade para compreender a
verdade do que outro? Claro que não.
Com todo respeito, depois de anos comissionados para isso,
nossos teólogos não conseguiram apresentar uma teologia da ordenação da mulher.
Não que sejam incapazes. Puderam apresentar uma teologia da ordenação em geral,
e não da mulher. E puderam deixar claro pra gente também uma outra coisa: a
questão é que a teologia da ordenação da mulher não existe (pelo meios ainda). É tipo tentar
querer inventar uma suposta teologia da música. A maior evidência disso é o
quanto o auditório se dividia em argumentos. Se existisse um claro “Assim Diz o
Senhor”, a favor ou contra, não haveria tamanhos vieses de argumentos. Aí você
pode questionar: mas assim é no mundo religioso, uns guardam o sábado outros o
domingo, todos com argumentos supostamente teológicos... Não. Não estamos
falando de correntes teológicas diferentes. Ontem, ali dentro daquele
auditório, todos eram adventistas. Se a discussão ali fosse sobre qualquer uma
das nossas 28 crenças fundamentais, não seria assim. Porque todos seguem uma
mesma escola de interpretação bíblica. Todos têm em sua predisposição querer
ser obedientes à Bíblia. Ou você acha que depois de a igreja selecionar seus
delegados, que são pessoas experimentadas, veteranas, conhecedoras da igreja e comprometidas
com a mesma, teríamos praticamente metade (cerca de mil pessoas) que estariam
pré-dispostas a torcer a Bíblia? Óbvio que não! E agora a sequência dividida de
comentários e artigos segue com diferentes vieses do mesmo jeito. É só procurar
na internet. O que os nossos teólogos conseguiram nos mostrar é que essa não é
uma questão teológica.
E por ser uma questão cultural, entram as teologias da
igreja e do amor. Na eclesiologia, alguns princípios devem ser mantidos,
inclusive, o da unidade do corpo de Cristo. O capítulo 14 de Romanos nos revela
algo muito importante: Se o que eu faço escandaliza o meu irmão, e o faz pecar,
então não devo fazer. Na realidade, devemos amar a Deus acima de todas as
coisas e amar ao nosso próximo como a nós mesmos. Esse é o princípio do
Cristão. "Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim
como eu vos amei a vós, que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto
conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.
(João 13:34-35)”. E foi até de princípios do comportamento infantil que Jesus
tirou as lições para tal necessidade, acrescentando o cuidado em fazer as
outras pessoas tropeçar, ou não, o cuidado pra não escandalizar os outros, o
cuidado que devemos ter para sempre ganhar e nunca perder uma pessoa, e até
mesmo a cartilha do que a gente deve fazer quando um irmão pisa na bola, passo
a passo.
Entende o que aconteceu? O que aconteceu ontem foi
exatamente o que aconteceu em Romanos 14. Um paradoxo entre a liberdade e o
escândalo, onde “um que crê” foi chamado à tolerância para com “um que se
entristece”. Se comer carne vai fazer escandalizar o meu irmão, então é melhor comer
vegetais. Eu pensei até em, em vez de escrever este post, escrever uma paráfrase de Romanos 14. Mas poderia
escandalizar ou ofender a algum leitor, e então cairia no mesmo erro sobre o
qual Paulo adverte. Mas o fato é que, o que me fez mudar de opinião não foram
as supostas teologias contra ou a favor[5].
A pesquisa foi teológica, mas os relatórios não. Os resultados foram práticos.
Ontem, desde a manhã até a tarde, eu estava olhando aquela vasta multidão
naquele auditório e fazendo uma
reflexão. Apesar de vários levantarem para
falar, era a minoria. A maioria dos delegados não falou. Ficaram sentados,
calados, em observação e oração. E se Pedro, Tiago, Abraão, Isaías, qualquer
outro profeta ou escritor bíblico, Ellen White e até o próprio Cristo estivessem
presentes no auditório, o que eles fariam? Levantariam para falar contra, ou a
favor? Nenhuma das duas opções. Ficariam sentadinhos caladinhos, só observando
e orando, confiando tudo às mãos de Deus. Como eu sei disso? É simples. É porque
nos escritos inspirados não tem nada que eles tenham dito sobre isso, e o que
eles tinham para dizer ficou deixado como escrito. Agora, se Paulo estivesse
presente, acho que ele diria: “Se ordenar mulheres num continente vai ofender
os irmãos do outro continente (ou até mesmo no próprio território), então é
melhor não ordenar”.
Logo, por estas razões, minha opinião mudou, e não tenho
vergonha em dizer isso. Creio que é melhor, por enquanto, que a igreja não
ordene mulheres, pois ela ainda não está preparada para isso. Espero que nunca
esteja, pois espero ver Cristo voltar em breve. Mas se Ele demorar, creio que a
igreja, numa próxima geração, chegará a esse amadurecimento. Pois o voto de
ontem foi um “não” não por mostrar amadurecimento para o “não”, mas sim por
mostrar a falta de amadurecimento, ainda, para lidarmos com o assunto.
Amadurecimento eu digo do corpo como um todo em seu entendimento filosófico, e
não quanto aos procedimentos administrativos e a maturidade das pessoas
envolvidas. No que tange a procedimentos, tudo foi feito com muito
amadurecimento e oração, e portanto creio que, por enquanto, essa é a vontade
de Deus: “não ordenarmos mulheres ao ministério adventista pastoral”.
Essa é a minha opinião. Ela respeita as dos demais, e também
não representa a opinião de mais ninguém. Mas sou convicto disso.
Com amor,
Pr. Valdeci Jr.
Para ver o quanto isso está em uma questão cultural, e não teológica, leia também os documentos a partir de: Ordenação de Mulheres na Igreja Adventista do Sétimo Dia.
[1] http://www.washingtonpost.com/local/social-issues/seventh-day-adventists-vote-against-female-ordination/2015/07/08/42920f7e-25c8-11e5-b77f-eb13a215f593_story.html
[2] http://gc2015.adventistas.org/pt/.
[3] http://noticias.adventistas.org/pt/noticia/institucional/delegados-decidem-por-continuar-a-nao-ordenar-mulheres-ao-ministerio-pastoral/
[4]http://www.nasaladopastor.com/2014/07/ordenacao-de-mulheres-na-igreja.html
[5]
Leia “Falácias e a Ordenação da Mulher” no blog do Michelson Borges: http://www.criacionismo.com.br/2015/02/falacias-e-ordenacao-da-mulher.html































