sábado, 9 de julho de 2011

Mulheres, Dança, Templo e Adoração

Por que as mulheres e a dança não são citados nos serviços de adoração do Templo?

Realmente, não há nenhuma dança no serviço de adoração. Para explicar esta questão, trago abaixo parte de uma pesquisa realizada pelo doutor em teologia, Samuelle Bachiochi.
Se fosse verdade que na Bíblia “a dança é um componente da adoração divina”, então por que não há nenhum indício de dança realizada por homens ou mulheres nos serviços de adoração no Templo, na sinagoga, ou na igreja primitiva? Será que o povo de Deus, em tempos bíblicos, negligenciou um importante “componente da adoração divina?”
Negligência não parece ser a razão para a exclusão da dança do culto divino, porque observamos que foram dadas instruções claras com respeito ao ministério da música no templo. O coro levítico só era acompanhado por instrumentos de corda (a harpa e o alaúde). Instrumentos de percussão como tambores e adufes, geralmente usados para executar música dançante, foram claramente proibidos. O que foi verdade no Templo também foi verdade para a sinagoga e mais tarde para a igreja primitiva. Nenhuma dança ou entretenimento musical jamais foi permitido na Casa de Deus.
Garen Wolf chega a essa conclusão depois de sua extensa análise em Dance in the Bible: “Primeiro, referências à dança, como parte da adoração no Templo, não podem ser encontradas em lugar algum, tanto no primeiro quanto no segundo Templo. Segundo, das 107 vezes que estas palavras são usadas na Bíblia [palavras hebraicas traduzidas como “dança”], em apenas quatro vezes elas podem ser consideradas como se referindo a dança religiosa. Terceiro, nenhuma destas referências a dança religiosa foi em conjunção com a adoração pública regular e tradicional dos hebreus”.
É importante notar que Davi, que é considerado por muitos como o exemplo principal para a dança religiosa na Bíblia, nunca deu instruções aos levitas com respeito a quando e como dançariam no Templo. Se Davi cresse que a dança deveria ser um componente na adoração divina, sem dúvida teria dado instruções relativas a ela aos músicos levitas que designou para se apresentarem no templo.
Acima de tudo, Davi foi o fundador do ministério de música no Templo. Vimos que ele deu claras instruções aos 4.000 músicos levitas pertinentes a quando cantarem e que instrumentos usarem para acompanharem seu coral. Sua omissão da dança na adoração divina dificilmente pode ser considerada como um lapso. Ao contrário, ela nos fala da distinção que Davi fez entre a música sacra, executada na Casa de Deus e a música secular tocada fora do Templo para o entretenimento.
Uma importante distinção deve ser feita entre música religiosa tocada para o entretenimento social e a música sacra executada para adoração no Templo. Não devemos nos esquecer que toda vida dos Israelitas era orientada pela religião. O entretenimento era provido, não por concertos ou apresentações em um teatro ou num circo, mas pela celebração de eventos religiosos ou festivais, freqüentemente através de danças folclóricas, com homens ou mulheres em grupos separados.
Nenhuma dança de orientação romântica ou sensual, realizada por casais, jamais ocorreu no antigo Israel. A maior dança anual acontecia, como veremos, juntamente com a Festa dos Tabernáculos, quando os sacerdotes entretinham o povo realizando incríveis danças acrobáticas a noite inteira. Isto significa que aqueles que apelam às referências bíblicas para justificar a dança romântica moderna dentro ou fora da igreja ignoram a vasta diferença entre as duas.
A maioria das pessoas que recorrem à Bíblia para justificar a dança romântica moderna não está nem um pouco interessada na dança dos povos mencionados na Bíblia, onde não havia nenhum contato físico entre os homens e as mulheres. Cada grupo de homens, mulheres, e crianças realizavam seu próprio “espetáculo”, que na maioria das vezes era um tipo de marcha com cadência rítmica. Eu vi a “Dança ao Redor da Arca” pelos sacerdotes Cópticos na Etiópia, onde várias tradições judaicas permaneceram, inclusive a observância do Sábado. Não pude entender por que eles chamavam aquilo de “dança”, já que era somente uma procissão dos sacerdotes, que marchavam com uma certa cadência rítmica. Aplicar a noção bíblica de dança à dança moderna, é enganoso, para se dizer o mínimo, porque há uma enorme diferença entre as duas. Este ponto ficará mais claro quando examinarmos as referências à dança.



As Referências à Dança. Contrariamente às suposições anteriores, apenas quatro das vinte e oito referencias a dança se referem sem discussão à dança religiosa, mas nenhuma destas tem a ver com a adoração pública realizada na Casa de Deus. Para evitar sobrecarregar o leitor com a análise técnica do uso extenso de seis palavras hebraicas traduzidas como “dança”, apresentarei apenas uma breve alusão a cada uma delas.
A palavra hebraica “chagag” é traduzida uma vez como “dança” em I Samuel 30:16 no contexto de “comendo, bebendo e dançando”, pelos Amalequitas. É evidente que isto não é dança religiosa.
A palavra hebraica “chuwl” é traduzida duas vezes como “dança” em Juízes 21:21,23, com referencia às filhas de Siló, que saíram a dançar nas vinhas e foram tomadas de surpresa como esposas pelos homens de Benjamim. Novamente, não há dúvida que neste contexto esta palavra se refere à dança secular, executada por mulheres acima de qualquer suspeita.
A palavra hebraica “karar” é traduzida duas vezes como “dança” em II Samuel 6:14 e 16 onde está declarado “E Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor;... Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela; e, vendo ao rei Davi saltando e dançando diante do Senhor....” Abaixo é dito mais acerca do significado da dança de Davi. Neste contexto é suficiente notar que “estes versos se referem a um tipo de dança religiosa fora do contexto da adoração no Templo. A palavra “karar” é usada nas escrituras apenas nestes dois versos, e nunca é usada em conjunção com a adoração no Templo”.37
A palavra hebraica “machowal” é traduzida seis vezes como “dança”. Salmos 30:11 usa o termo poeticamente: “Tornaste o meu pranto em regozijo (danças)”. Jeremias 31:4 fala das “virgens de Israel” as quais “sairão nas danças dos que se alegram”. O mesmo pensamento é expresso no verso 13. Em ambas as ocasiões as referências são a danças folclóricas sociais, executadas pelas mulheres.
“Louvai-O com Danças”. Em dois exemplos importantes, machowal é traduzido como “dança” (Salmos 149:3 e 150:4). Eles são os mais importantes porque na visão de muitas pessoas eles provêem o apoio bíblico necessário para se dançar como parte na adoração da igreja. Uma olhada de perto nestes textos demonstra que esta suposição popular está baseada em uma leitura superficial e numa interpretação incorreta dos textos.
Lingüisticamente, o termo “dança” nestes dois versos é contestado. Alguns estudiosos acreditam que machowl deriva de chuwl que significa “fazer uma abertura”.39–uma possível alusão a um instrumento de “tubos”, como um órgão. Na realidade esta é a versão de rodapé dada pela KJV. O Salmo 149:3 declara: “Louvem-lhe o nome com danças” [ou “com órgão”, no rodapé da KJV]. Em Salmos 150:4 lemos: “Louvai-O com adufes e com danças” [ou “órgão”, rodapé da KJV].
Pelo contexto, machowl parece ser uma referência a um instrumento musical; em ambos os textos, Salmos 149:3 e 150:4, o termo ocorre no contexto de uma lista de instrumentos a serem usados no louvor ao Senhor. No Salmo 150 a lista possui oito instrumentos: trompete, saltério, harpa, adufes, instrumentos de corda, órgãos, címbalos sonoros, címbalos retumbantes (KJV). Como o salmista está listando todos os instrumentos a serem usados no louvor do Senhor, é plausível assumir que machowal é também um instrumento musical, seja qual for a sua natureza.
Outra consideração importante é a linguagem figurativa desses dois salmos, a qual, dificilmente dá margem a uma interpretação literal de dança na Casa de Deus. O Salmo 149:5 encoraja o povo a louvarem o Senhor nos “leitos”. No verso 6, o louvor é feito com “espadas de dois gumes” nas mãos. Nos versos 7 e 8, o Senhor é louvado por castigar os povos, pôr os reis em cadeias, e os seus nobres em grilhões de ferro. É evidente que a linguagem é figurativa porque é difícil acreditar que Deus esperaria que as pessoas O louvassem estando em pé ou saltando sobre as camas ou enquanto brandem uma espada de dois gumes.
O mesmo se aplica ao Salmo 150, que fala em louvar a Deus, de modo altamente figurativo. O salmista chama o povo de Deus para louvar o Senhor “pelos seus poderosos feitos” (verso 2) em todo lugar possível e com todo instrumento musical disponível. Noutras palavras, o salmo menciona o lugar onde louvar o Senhor, particularmente, “no Seu santuário” e “no firmamento do Seu poder”; a razão citada para louvar o Senhor, é por “Seus atos poderosos. . . conforme a excelência da sua grandeza”. (verso 2); e os instrumentos a serem usados citados para louvar ao Senhor são os oito listados acima.
Este salmo só faz sentido se considerarmos a linguagem como sendo altamente figurativa. Por exemplo, não há nenhuma possibilidade do povo de Deus poder louvar o Senhor “no firmamento do Seu poder”, porque eles vivem na terra e não no céu. O propósito do salmo não é especificar o local e os instrumentos a serem usados na música de louvor na igreja. Nem se pretende dar permissão para dançar para o Senhor na igreja. Antes, seu propósito é convidar todo aquele que respira ou emite sons para louvar ao Senhor em todos os lugares. Interpretar o salmo como sendo uma permissão para dançar, ou tocar tambores na igreja, é interpretar de forma incorreta a intenção do Salmo e contradizer as regras que o próprio Davi deu com respeito ao uso de instrumentos na Casa de Deus.
Dança de Celebração. A palavra hebraica mechowlah é traduzida como “dança” sete vezes. Em cinco das sete ocorrências a dança é feita por mulheres na celebração de uma vitória militar (I Samuel 18:6; 21:11; 29:5; Juízes 11:34; Êxodo 15:20). Miriam e as mulheres dançaram para celebrar a vitória sobre o exército egípcio (Êxodo 15:20). A filha de Jefté dançou para celebrar a vitória de seu pai sobre os amonitas (Juízes 11:34). Mulheres dançaram para celebrar a matança dos Filisteus por Davi (I Samuel 18:6; 21:11; 29:5).
Nas duas ocorrências restantes, mechowlah é usada para descrever a dança dos Israelitas, nus, ao redor do bezerro de ouro (Êxodo 32:19) e a dança das filhas de Siló nas vinhas (Juízes 21:21). Em nenhum destes exemplos a dança é parte de um serviço de adoração. A dança de Miriam pode ser vista como religiosa, mas da mesma forma que as danças executadas em relação às festividades anuais. Porém, estas danças não eram vistas como um componente de um serviço divino. Elas eram celebrações sociais de eventos religiosos. A mesma coisa acontece hoje em países católicos onde as pessoas celebram anualmente dias santos organizando carnavais.
A palavra hebraica raquad é traduzida quatro vezes como “dança” (I Crônicas 15:29; Jó 21:11; Isaías 13:21; Eclesiastes 3:4 [NVI]). Uma vez se refere a “seus filhos põe-se a dançar” (Jó 21:11). Outro é o “sátiro que dança” (Isaías 13:21) que pode ser uma cabra ou uma figura de linguagem. Um terceiro exemplo é uma referência poética ao “tempo de dançar” (Eclesiastes 3:4), mencionada como contraste ao “tempo para chorar”. Uma quarta referência é o exemplo clássico do “rei Davi dançando e folgando” (I Crônicas 15:29). Em vista do significado religioso relacionado à dança de Davi, uma consideração especial será feita em breve.
Dança no Novo Testamento. Duas palavras gregas são traduzidas como “dança” no Novo Testamento. A primeira é orcheomai, traduzida quatro vezes como “dançar”, referindo-se a dança da filha de Herodias (Mateus 14:6; Marcos 6:22) e a dança dos meninos (Mateus 11:17; Lucas 7:32). A palavra orcheomai significa dançar em movimentos graduais ou regulares e nunca é usada para se referir à dança religiosa na Bíblia.
A segunda palavra grega traduzida como “dança” é choros. Ela é usada apenas uma vez em Lucas 15:25, referindo-se ao retorno do filho pródigo. Nos é dito que quando o filho mais velho chegou perto da casa “ouviu a música e as danças”. A tradução “danças” é contestada porque a palavra grega choros ocorre apenas uma vez nesta passagem e é usada na literatura extra-bíblica significando “coral” ou “grupo de cantores”.39 De qualquer forma, esta era uma reunião familiar de natureza secular e não se referia à dança religiosa.
A conclusão a que chegamos pela pesquisa anterior das vinte e oito referências à dança é que a dança na Bíblia era essencialmente uma celebração social de eventos especiais, como uma vitória militar, um festival religioso, ou uma reunião familiar. Dança era realizada principalmente por mulheres e crianças. As danças mencionadas na Bíblia eram ou processionais, em circulo, ou que levavam ao êxtase.
Nenhuma referência bíblica indica que os homens e as mulheres dançavam juntos de modo romântico e em pares. Como observa H. Wolf, “Embora o modo de dançar não seja conhecido em detalhes, está claro que os homens e mulheres geralmente não dançavam juntos, e não existe nenhuma real evidência de que eles alguma vez o tivessem feito”.40 Além disso, ao contrário de suposições populares, a dança na Bíblia nunca foi executada como parte da adoração divina no Templo, na sinagoga, ou na igreja primitiva.
A Dança na Adoração Pagã. A maioria das indicações de dança religiosa na Bíblia tem a ver com a apostasia do povo de Deus. Há a dança dos Israelitas no pé do Monte Sinai ao redor do bezerro de ouro (Êxodo 32:19). Existe uma alusão à dança dos israelitas em Sitim quando “começou o povo a prostituir-se com as filhas dos moabitas”. (Números 25:1). A estratégia usada pelas mulheres moabitas foi convidar os homens israelitas “para o os sacrifícios dos seus deuses” (Números 25:2), o qual, normalmente, requeria dança.
Aparentemente a estratégia foi sugerida pelo profeta apóstata, Balaão, para Balaque, rei de Moabe. Veja este comentário: “Por sugestão de Balaão, foi pelo rei de Moabe designada uma grande festa em honra a seus deuses, e arranjou-se secretamente que Balaão induzisse os israelitas a assistirem à mesma.... Iludidos pela música e dança, e seduzidos pela beleza das vestais gentílicas, romperam sua fidelidade para com Jeová. Unindo-se-lhes nos folguedos e festins, a condescendência com o vinho enuviou-lhes os sentidos e derribou as barreiras do domínio próprio”.
Houve os gritos e danças dos profetas de Baal no Monte Carmelo (I Reis 18:26). A adoração a Baal e outros ídolos acontecia geralmente nos montes, com danças. Assim, o Senhor apela a Israel através do profeta Jeremias: “Voltai, ó filhos infiéis, eu curarei a vossa infidelidade . . . Certamente em vão se confia nos outeiros e nas orgias nas montanhas” (Jeremias 3:22-23).
Davi Dançou Diante do Senhor. A história de Davi dançando “com todas as suas forças diante do Senhor” (II Samuel 6:14), enquanto conduzia o séqüito que trazia a arca de volta para Jerusalém, é vista por muitos como a sanção bíblica mais convincente para a dança religiosa no contexto do culto divino. No capítulo “Dançando ao Senhor”, do livro Shall We Dance?, Timothy Gillespie, líder de jovens cristãos, escreve: “Podemos dançar perante o Senhor como Davi, refletindo uma erupção de excitamento para a glória de Deus; ou podemos voltar esse excitamento ao nosso interior, refletindo sobre nós e nossos desejos egoístas”.42 A implicação desta declaração parece ser que se nós não dançarmos ao Senhor como Davi, reprimiremos nossa excitação e revelaremos nosso egocentrismo. Isto é o que a história da dança de Davi nos ensina? Olhemos este assunto mais de perto.
A dança de Davi diante da arca possui sérios problemas, para se dizer o mínimo. Em primeiro lugar, Davi estava “cingido dum éfode de linho” (II Samuel 6:14) como um sacerdote e “trouxe holocaustos e ofertas pacíficas perante o Senhor”. (II Samuel 6:17). Note que o éfode era uma estola de linho, sem mangas, para ser usado exclusivamente pelos sacerdotes como um símbolo do seu ofício sagrado (I Samuel 2:28). Por que Davi escolheu trocar seu manto real pelos trajes de um sacerdote?
Davi mostrou um espírito de humildade por colocar seu manto real de lado e “se vestindo com um éfode de linho”. Esta é uma explicação plausível. O problema é que em lugar algum a Bíblia sugere que o éfode pudesse ser usado, legitimamente, por alguém que não fosse sacerdote. O mesmo é verdade quanto aos sacrifícios. Só os sacerdotes levitas tinham sido consagrados para oferecerem sacrifícios (Números 1:50). O rei Saul foi reprovado severamente por Samuel por oferecer sacrifícios: “Procedeste nesciamente em não guardar o mandamento que o Senhor, teu Deus, te ordenou” (I Samuel 13:13). Oferecendo sacrifícios vestido como um sacerdote, Davi estava assumindo um papel sacerdotal além do seu status real. Tal atitude não pode ser defendida facilmente na Bíblia.
O Comportamento de Davi. Mais problemática foi a maneira como Davi dançou. Davi dançou “com júbilo perante Deus”.44 Sem dúvida isto deve ter sido verdade durante parte do tempo. Mas parece que durante a dança, Davi deve ter se exaltado tanto que perdeu o manto que o encobria, pois Mical, sua esposa, reprovou-o, dizendo: “Que bela figura fez o rei de Israel, descobrindo-se, hoje, aos olhos das servas de seus servos, como, sem pejo, se descobre um vadio qualquer!” (II Samuel 6:20). Davi não contestou tal acusação nem se desculpou pelo que fez. Ao invés disso, argumentou dizendo que fez isso “perante o Senhor” (II Samuel 6:21), e que ele estava preparado para agir de forma “ainda mais desprezível” (II Samuel 6:22). Tal resposta dificilmente revela um aspecto positivo do caráter de Davi.
Talvez a razão dele não estar preocupado por ter se despido durante a dança, é que este tipo de exibicionismo não era incomum. Nos é dito que Saul também atuou em uma dança extática: “E, despindo as suas vestes, ele também profetizou diante de Samuel; e esteve nu por terra todo aquele dia e toda aquela noite”. (I Samuel 19:24; cf. 10:5-7, 10-11).
É fato conhecido que no período das festas anuais, danças especiais eram organizadas por sacerdotes e nobres que executavam acrobacias para divertirem ao povo. Porém, não há nenhuma menção de que os sacerdotes se despissem. A dança mais famosa era executada no último dia da Festa dos Tabernáculos, e era conhecida como a “Dança das Águas”.
No Talmude há uma descrição colorida desta Dança das Águas que era apresentada no ambiente do Templo conhecido como átrio das mulheres: “Homens piedosos e homens de negócios dançavam com tochas em suas mãos, enquanto cantavam canções de alegria e de louvor, e os levitas tocavam música com lira, harpa, címbalos, trompetes e outros incontáveis instrumentos. Durante esta celebração, diz-se que o rabino Simeão ben Gamaliel fazia malabarismos com oito tochas, e depois dava uma cambalhota”.45
Danças feitas por homens ou por mulheres nos tempos bíblicos, dentro do contexto de um evento religioso, era uma forma de entretenimento social, em vez de ser parte do serviço de adoração. Elas poderiam ser comparadas às celebrações anuais de carnavais que acontecem hoje em muitos países católicos. Por exemplo, nos três dias que antecedem a Quaresma, em países como o Brasil, o povo organiza festas carnavalescas extravagantes, com inúmeros tipos de danças coloridas e, às vezes selvagem, semelhante ao Mardi Gras em Nova Orleans. Nenhum católico consideraria tal dança como parte dos cultos de adoração.
O mesmo é verdade para os vários tipos de danças mencionados na Bíblia. Elas eram eventos sociais com conotações religiosas. Homens e mulheres dançavam, não de modo romântico, em pares, mas danças processionais ou em círculos. Por causa da orientação religiosa da sociedade judaica tais danças folclóricas eram, freqüentemente, caracterizadas como danças religiosas. Mas não há indicação na Bíblia de que qualquer forma de dança jamais estivesse associada ao serviço de adoração na Casa de Deus. Na realidade, como notado a seguir, as mulheres foram excluídas do ministério da música no templo, aparentemente porque suas músicas eram associadas à dança e ao entretenimento.
As Mulheres e a Música na Bíblia. Por que as mulheres foram excluídas do ministério da música, primeiramente no Templo, e depois na sinagoga e na igreja primitiva? Numerosas passagens bíblicas se referem a mulheres cantando e tocando instrumentos na vida social do antigo Israel (Êxodo 15:20-21; I Samuel 18:6-7; Juizes 11:34; Esdras 2:64-65; Neemias 7:66-67), mas nenhuma referência na Bíblia menciona mulheres participando na música de adoração da Casa de Deus.
Curt Sachs observa que “Quase todos os eventos musicais até a época do Templo descrevem canto coral cantando com dança em grupo e batida de tambores. . . Este tipo de canto era em grande parte a música das mulheres”.46 Por que então as mulheres foram excluídas do ministério de música do Templo, quando elas eram as principais musicistas na sociedade judaica?
Estudiosos que analisaram esta questão sugere duas razões principais. Uma razão é de natureza musical e a outra sociológica. De uma perspectiva musical, o estilo de música produzido pelas mulheres tinha uma batida rítmica que era mais apropriada para o entretenimento do que para adoração na Casa de Deus.
Robert Lachmann, uma autoridade em cantilena judaica, é citado dizendo: “A produção das canções das mulheres era dependente de um conjunto pequeno de melodias típicas; as várias canções reproduziam estas melodias – ou algumas delas – repetidamente, vez após vez. . . As canções das mulheres pertenciam a um tipo particular, cuja forma não é essencialmente dependente da conexão com o texto, mas sim de processos de movimentos. Assim encontramos aqui, no lugar do ritmo da cantilena e de sua linha melódica muito intrincada, um movimento periódico para cima e para baixo”. 47
A música das mulheres era em grande parte baseada numa batida rítmica, batendo-se com a mão o adufe (toph), ou tamboril. Estes são os únicos instrumentos musicais mencionados na Bíblia como sendo tocados por mulheres e se acredita que eles sejam os mesmos ou bem parecidos. O adufe ou tamboril parece que era um tambor de mão composto por uma armação de madeira, em volta da qual uma única pele era esticada. Eles eram um pouco parecidos ao pandeiro moderno.
“É interessante a notar”, escreve Garen Wolf, “que eu não pude achar uma única referência direta às mulheres tocando o nebel [a harpa] ou o kinnor [a lira] - esses instrumentos eram tocados por homens na música de adoração do templo. Pode haver pouca duvida de que a música delas fosse, na sua maior parte, diferente em espécie daquela dos músicos levitas homens, que se apresentavam no templo”.48
O adufe ou tamboril eram tocados em grande parte por mulheres, conjuntamente com suas danças. (Êxodo 15:20; Juízes 11:34; I Samuel 18:6; II Samuel 6:5, 14,; I Crônicas 13:8; Salmos 68:25; Jeremias 31:4). O tamboril também é mencionado com relação à bebida forte (Isaías 5:11-12; 24:8-9).
Natureza Secular da Música das Mulheres. De uma perspectiva sociológica, as mulheres não foram usadas no ministério de música no templo, por causa do estigma social ligado ao seu uso dos tamboris e da música orientada ao entretenimento. “Mulheres na Bíblia freqüentemente eram relatadas cantando um tipo de música sem sofisticação. Normalmente o seu melhor era para a dança ou o lamento funerário, e o seu pior era para ajudar no apelo sensual das meretrizes na rua. Em sua sátira sobre Tiro, Isaías pergunta: ‘Cantará Tiro como uma meretriz?’ (Isaías 23:15; ou como diz a KJV, ‘sucederá a Tiro como se diz na canção da prostituta.’)”.49
É digno de nota que musicistas femininas foram usadas, extensivamente, em serviços religiosos pagãos.50 Assim, o motivo para sua exclusão do ministério de música no Templo, na sinagoga, e na igreja cristã primitiva não foi cultural, mas sim teológico. A convicção teológica era que a música produzida comumente pelas mulheres não era apropriada para o serviço de adoração, por causa de sua associação com o com o entretenimento secular e, às vezes, sensual.
Esta razão teológica é reconhecida por numerosos estudiosos. Em sua dissertação Musical Aspects of the New Testament, William Smith escreveu: “Uma reação ao emprego extensivo de musicistas femininas na vida religiosa e secular das nações pagãs, foi indubitavelmente um fator muito importante em determinar a oposição judaica [e cristã primitiva] ao uso das mulheres no serviço musical do santuário”.51
A lição da Bíblia e da história não é que as mulheres devam ser excluídas do serviço de música da igreja de hoje. Louvar o Senhor com música não é uma prerrogativa masculina, mas um privilégio de cada filho de Deus. É uma infelicidade que a música produzida pelas mulheres em tempos bíblicos tenha sido principalmente para o entretenimento e, por conseguinte, inadequada para a adoração divina.
A lição que a igreja precisa aprender da Bíblia e da história é que a música secular associada ao entretenimento está fora de lugar na Casa de Deus. Aqueles que estão ativamente envolvidos em estimular a adoção da música popular na igreja precisam compreender a distinção bíblica entre música secular usada para o entretenimento e a música sacra apropriada para a adoração a Deus. Esta distinção era compreendida e respeitada em tempos bíblicos, e deve ser respeitada hoje, se quisermos que a igreja continue sendo um local sagrado para a adoração a Deus, em vez de se tornar num local secular para o entretenimento social.

CONCLUSÃO

A Bíblia não apóia o tipo de dança romântica ou sensual que é popular em nossos dias. Nada na Bíblia indica que homens e mulheres tivessem dançado juntos, de forma romântica, em pares. Descobrimos que a dança na Bíblia era essencialmente uma celebração social de eventos especiais, tais como numa vitória militar, num festival religioso, ou numa reunião familiar. A maioria das danças era realizada por mulheres, que foram excluídas do ministério de música do Templo, sinagoga, e igreja primitiva, porque sua música de entretenimento foi considerada inadequada para o serviço de adoração.


Um abraço,

Twitter: @Valdeci_Junior

Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
Por que a Bíblia não menciona mulheres realizando o ato de sacrificar animais? Se somos todos iguais perante Deus, elas não tinham o direito de receber Seu perdão de por seus pecados?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ninrode




Quem foi Ninrode?



Estou feliz por perceber que você quer saber cada vez mais a respeito da Bíblia.


Embora o nome de Ninrode não tenha sido ainda encontrado nos registros babilônicos, os árabes continuam relacionando alguns lugares antigos com este nome. Por exemplo, Birs-Nimrud é o nome dele dado às ruínas de Borsipa; e Ninrode, para Cala.

Estes nomes devem depender de tradições muito antigas e não podem ser atribuídos somente à influência do Alcorão. Até onde sabemos, pelas evidências históricas disponíveis, os habitantes primitivos da Mesopotâmia não foram semitas, mas sumérios. Pouco se sabe sobre a origem dos sumérios. O fato de Ninrode, que era descendente de Cão, tenha fundado a primeira cidade estado da Mesopotâmia, sugere que os sumérios provavelmente fossem descendentes de Cão.

Podemos notar que as expressões bíblicas descrevem a Ninrode como uma pessoa renomada pelos seus feitos ousados, audazes e, talvez, até tirano[1].

O caçador Ninrode desafiava a Deus com seus fatos, e suas poderosas façanhas o fizeram famoso entre seus contemporâneos e também nas gerações futuras.

Ninrode aparece no registro das nações como o autor do imperialismo. A partir dele, a sociedade passou da forma patriarcal à monárquica. É o primeiro homem mencionado na Bíblia como cabeça de um reino. Babilônia foi o primeiro reino de Ninrode.


Que Deus o abençoe,



Twitter: @Valdeci_Junior




[1] Extraído do Comentário Bíblico SDABC, Gênesis 10:8.



Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
Por que as mulheres e a dança não são citados nos serviços de adoração do Templo?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Letra Mata? Como?





Gostaria de entender II Coríntios 3:6. O que significa a frase “a letra mata”?






O qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. II Coríntios 3:6.

Para entender este versículo é preciso contextualizar-se com todo do trecho que trata de um determinado assunto. Em II Coríntios 3:4-11 , Paulo compara o ministério do novo concerto, que ele e seus coobreiros exercem, com o ministério do antigo concerto. O quadro abaixo ilustra este contraste. Para compreender melhor, complete os espaços vazios, estudando os seguintes versos, em sua Bíblia:


Ministério do Antigo Concerto
Ministério do Novo Concerto
Da letra que mata (verso 6)


Ministério do Espírito (verso 8)
Ministério que traz condenação (verso 9)
Ministério que produz jusfiça (verso 9)
Tinha a glória que se perdeu (verso 7 e 9-11)


Permanece, é durável (verso 11).


Aparentemente, Paulo estava se referindo a algumas pessoas cujo ministério do antigo concerto contrastava com sua abordagem do novo concerto. Mais tarde, Paulo vai referir-se a esses oponentes como falsos apóstolos que são, na realidade, sócios de Satanás ( II Cor 11:5, 13-15 ). Eles se jactavam de suas credenciais judaicas ( 11:22 ) e comparavam as cartas de recomendação que possuíam (talvez, da igreja de Jerusalém) com a falta de tais credenciais de Paulo ( 3:1-3 ).
Devemos ter em mente que, quando Paulo se refere ao antigo concerto, está considerando sua aplicação equivocada pela nação judaica e pelos judaizantes de seus dias. Nada há de errado com a letra da lei, pois foi o próprio Deus que a escreveu em tábuas de pedra. Elas não deviam permanecer somente na pedra, mas também deviam ser escritas no coração humano. De outra forma, haveriam de tornar-se um conjunto de regras e de regulamentos destinados a obter uma obediência externa.
Deus desejava que o ministério da letra da lei e seu espírito andassem juntos. Ele não pretendia que um excluísse o outro. A lei contém o registro de Sua vontade revelada, que deve ser observada na vida dos cristãos pelo poder do Espírito Santo. Assim, o que está registrado em Jeremias se toma uma viva realidade: "Na mente, lhes imprimirei as Minhas leis, também no coração lhas inscreverei ..." ( 31:33 ). Mesmo os ensinos de Jesus perdem a vida, a menos que permitamos que o Espírito Santo os torne uma experiência transformadora. Nossa vida espiritual deve sempre estar firmada num "Assim diz o Senhor", e "Está escrito".

Que Deus o abençoe,

Twitter: @Valdeci_Junior

Fonte: LES, 3º Trim. 1998.

Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
Quem foi Ninrode?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Verdade Nua e Crua Sobre o Sexo dos Evangélicos

A Bíblia apresenta uma moral sexual diferenciada. Mas e na prática dos que seguem a Bíblia, como tem sido? Em que aspecto a sexualidade dos crentes evangélicos e protestantes tem realmente estado diferenciada da sexualidade das demais pessoas?

Li algo muito interessante sobre isso, e quero recomendar-lhe uma matéria. Intitulada Verdade Nua e Crua, da Redação de Cristianismo Hoje, tal matéria revelou os dados de uma pesquisa feita com rigor científico que foi chamada de O Crente e o Sexo. Ela trata de uma pesquisa  sobre a pregação e as práticas sexuais dos evangélicos em comparação com as práticas sexuais do grande público. Neste assunto, todos nós conseguimos enxergar parte do problema e levantar algumas hipóteses. Mas entendo que a sua pergunta persegue enxergar, objetivamente, alguns resultados mais palpáveis. Para isso, vou apresentar-lhe, abaixo, uma breve resenha do que li, e o encaminhamento para a matéria completa.
O Problema
Sexo, para os cristãos, sempre foi um problema. É, praticamente, proibido falar sobre ele nas igrejas. Assunto restrito às quatro paredes dos gabinetes pastorais e considerado tabu pelos crentes, o sexo tem sido visto como uma espécie de fruto proibido ao longo de séculos. A imagem, aliás, é das mais apropriadas – acostumou-se a associar o pecado original de Adão e Eva à prática do sexo, e não à desobediência explícita ao Criador.
Há uma carência de material do gênero. Não há quase nada sobre a sexualidade dos evangélicos.  O sexo tem sido considerado algo insalubre, perversão escondia, uma neurose religiosa, pois, ao longo dos séculos, não tem sido tratado como coisa comum, natural. Deste Agostinho, no século 4, o sexo tem tornado-se algo terrível, uma nódoa na consciência dos cristãos – feio, sujo, impuro, perverso e vicioso.
As Hipóteses
Toda esta problemática poderá ter sido gerada pelo fato de o sexo ser vítima de simples preconceito sem fundamentos? Legalismo? Uma pseudo-moralidade que estivesse visando muito mais ao controle social do que à santidade teria contribuído para levar a sexualidade a atravessar as eras como algo sujo, um prazer proibido, que afastaria as pessoas de Deus?
Os tempos modernos têm influenciado o comportamento dos crentes? Será que existe muito dogmatismo e falta de diálogo? Hoje em dia, será que os crentes, em diversos aspectos, realmente diferem-se tanto das pessoas que a Igreja convencionou chamar como “do mundo”?
Ou o proibido estaria sendo apenas algo mais gostoso? A sociedade estaria equivocada em imaginar que a religião seja um cabresto para determinados impulsos da natureza humana, como a sexualidade, por exemplo?
Os Objetivos
Em 2009, o Ministério da Saúde realizou uma pesquisa com a população em geral, sobre sexualidade. O objetivo era balizar políticas públicas de combate à Aids. Alguns resultados apresentados foram inquietantes, como o índice de traição ao parceiro fixo, que ficou na casa dos 16 por cento em um ano.  Uma pesquisa similar, realizada somente entre os crentes visa observar se existiria alguma proximidade relativa entre as práticas sexuais dos crentes e das demais pessoas, ou se realmente os evangélicos poderiam ser tratados como uma categoria diferenciada da população.
Esse trabalho busca descobrir se os crentes se contentam apenas com as modalidade de práticas sexuais mais convencionais. Objetiva-se também a incentivar a abertura que mantenha a honestidade das respostas ainda que o assunto seja difícil, e observar  se a imaginação de que os crentes sejam uma categoria diferenciada da população em seus costumes e hábitos sexuais seria um mito ou uma verdade.
Resumindo, esse trabalho visa verificar se existe um abismo entre o discurso dos púlpitos e a prática dos crentes.
Alguns Resultados
Você sabia que, segundo a pesquisa O Crente e o Sexo, entre os crentes, 25% dos homens casados já traíram a mulher? E as mulheres? 12%. Sim! Em cada dez casais crentes, podemos encontrar de dois a três casos de infidelidade. Sem contar que 56% dos pesquisados do sexo masculino tenham praticado sexo com o futuro cônjuge antes do casamento.
A matéria Verdade Nua e Crua também revela que, além de existirem cristãos evangélicos que têm ou tiveram algum tipo de “envolvimento com homossexualismo”, muitos outros também fazem uso de pornografia, a saber, 44,5%.
E como é o sexo, mesmo entre os casados? Quase 38% dos evangélicos dizem que, dentro de quatro paredes, vale tudo. Mais de 80% dos crentes evangélicos disseram praticar sexo oral. E muitos outros, até mesmo o sexo anal (21,4%).  Continue lendo estas apimentações em Verdade Nua e Crua.
O apóstolo Paulo, em 2 Timóteo 3:1-17, já havia previsto que sobreviriam tempos difíceis. O segredo é termos firmeza pela palavra, para nos mantermos puros, mesmo em meio a um mundo tão assustadoramente pervertido. Você ainda tem a oportunidade de fazer parte dos que não dobrarão seus joelhos a Baal, mas que, como os 144000 e como as cinco virgens, se manterá prudente e puro.
Que Deus mantenha a sua sexualidade segundo os seus planos. Para isto, recomendo-lhe que leia também “O Sexo é Pecado? O Sexo é Santo?”.
Um abraço,
Twitter: @Valdeci_Junior

Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
Gostaria de entender II Coríntios 3:6. O que significa a frase “a letra mata”?.

Masturbação em Mateus 5:30?

Já pesquisei muito sobre um questionamento que tenho, mas ainda não encontrei um comentário bíblico que me responda. A pergunta é: "Se o assunto do texto de Mateus 5:28 até Mateus 5:32 é adultério, o que este verso da "mão", o verso 30, está fazendo aí?". Sabe pastor, é que pra mim, este verso faz parte do assunto, da moral, da cobiça sexual e do pecado sexual que o indivíduo pratica solitariamente. Portanto, o que consigo ver neste verso, é uma alusão clara à masturbação. Parece-me que as regras hermenêuticas que aprendi, mais apóiam do que desapontariam esta interpretação. Mas eu nunca encontrei ninguém interpretando este verso assim. Daí eu fico me questionando, se estou fazendo uma "eixegese". O que o senhor acha? Se você já leu algum comentário ou trabalho sobre isto, e puder indicar-me, ficarei grato.


Achei o seu questionamento muito interessante. Nunca tinha visto dessa forma, mas faz muito sentido, levando em conta o contexto. Também não conheço nenhum comentarista bíblico que interprete a mão no sentido de masturbação. Essa interpretação, creio, só poderia ser feita num contexto homilético e com muito equilíbrio. Mas para refletir sobre Mateus 5:30, analisemos alguns pontos.

- O pecado nasce na imaginação e os olhos são a porta de entrada para imagens (cenas, pessoas, etc) nas quais a mente poderá se deter (imaginar). Isso é verdade especialmente para os pecados sexuais, que é o tema imediato da passagem.

- As mãos simbolizam a prática dos atos humanos (puros ou pecaminosos). Lembra do sinal na testa e na mão (Apoc.)? Aponta para o assentimento mental (intelectual) e para as obras.

- “Olho direito” – expressão que aponta para o melhor olho (figurativamente)

- “Mão direita” – expressão que aponta para a melhor mão.

- Vemos nessa combinação (olho e mão) a nascente e a consecução do pecado, ou seja, nasce e se desenvolve na imaginação (desencadeada pelos olhos) e desemboca inevitavelmente nos atos (representados pela mão).

- Arrancar o olho direito e cortar a mão direita – expressões usadas por Jesus para convencer Seus ouvintes de que o pecado, quer ainda esteja na mente ou já sendo praticado, deve ser radicalmente eliminado. A mutilação dessas partes tão importantes do corpo é o recurso retórico que Jesus encontrou para mostrar que, mesmo que seja com muito sofrimento, precisamos nos isolar do pecado. Considerando as demandas da natureza humana carnal, eliminar o pecado pode ser tão doloroso quanto arrancar um olho ou cortar a mão. Mas é a única alternativa para quem almeja alcançar o caráter dos que herdarão o Reino, esboçado nos versos anteriores (principalmente nas bem-aventuranças).

Veja bem, se pensarmos que Jesus está se referindo ao que faz um homem pecar, quebrar os votos matrimoniais, o adultério, infidelidade - e olha que ele está aqui falando somente do gênero masculino como parte ativa do adultério, ao contrário do que em muitos textos e na maioria das culturas a culpada é mulher, por seduzir o homem. O homem passa a ser somente uma massa carregada de hormônios e libido, e que também na imaginação de alguns, ele não tem, não pode, e não quer ter controle sobre si mesmo.

Se analisarmos que Jesus está, então, falando sobre o que leva um homem a cometer adultério, e até detalhando os passos: olhos (visual, o homem é altamente sensível ao atrativo visual), mão (tato, o homem é quem toma a ação - seja a masturbação ou mesmo o ato de procurar a mulher\parceiro(a) - não podemos excluir o homossexualismo - Jesus está listando detalhadamente aquilo que é considerado adultério. E finaliza este assunto com o divórcio, que também é mencionado, como uma forma de adultério se acontecer de forma diferente daquilo que foi estabelecido por ele.

Agora, dentro da teologia sistemática, ao interpretar esse termo “mão” como uma referência à masturbação, devemos admitir que a opção é pela exegese, ou seja, seguindo o método Léxico- Sintático. Nesse caso devemos procurar, utilizando o léxico todas as possibilidades do significado dessa palavra, no texto original. Em grego o termo é “qeira” de “qeiros” que no lexico tem o significado de “mão”(parte anatômica), e em raras ocasiões pode ter a conotação de “atividade” ou “ajuda”; equivalente a expressão em português: “dar uma mãozinha”. Ao dar outro significado, estaria se optando por uma eisegese, ou seja, permitir que o vocábulo em questão seja interpretado segundo o significado pessoal que o leitor deseja dar. Esse significado pode ser muito variado, segundo o número de leitores que infere com um significado diferente.

Parece que o melhor método para interpretar esse texto seja a Análise Teológica, ou seja o estudo baseado no tema focal do texto. Para isso é necessário limitar a relação com os outros versos, anteriores e posteriores e, definir a perícope do texto. A perícope pode ser Imediata e Mediata. A perícope Imediata parece estar entre os versos 27 ao 30 de Mt. 5, e a perícope Mediata, dos versos 17 ao 48 do mesmo capítulo.

O tema da primeira perícope ou seja Imediata, é sem dúvida o “adultério” e não as diferentes formas de sexualidade e suas aberrações. Na forma literária se adverte uma expressão metafórica e outra enfática. Na foma metafórica, a expressão “se teu olho direito”; se refere mais à cobiça, a concupiscência, a lascivia, do que ao próprio olho; pois ninguém “olha” uma mulher só com o olho direito. Na forma enfática, essa mesma expressão seguida pela sentença “arranca-o”, faz referência a evitar com todas as forças o “desejo” carnal pecaminoso, pois o objetivo supremo é a salvação.

O tema da segunda perícope, ou seja Mediata, é o cumprimento da Lei. No v. 17 Cristo afirma que Ele mesmo veio a cumprir a Lei, no v. 18, nova afirmação sobre a permanência da Lei, sem alterações de um til sequer, ate que passem os céus. Posteriormente há referências claras aos mandamentos da Lei como no v. 21, “não matarás” no v. 27, “não cometerás adultério”; no v. 33, “não perjurarás”; no vv. 43 e 44, “amarás o teu próximo” e “amai vossos inimigos”.

Mas sua interpretação não me parece de todo errada. Ainda que não haja uma menção direta à masturbação, pode-se ver aí, uma alusão indireta, embora o assunto seja, de fato, mais profundo do que o comportamento de masturbar-se. O que acho que Jesus estava dizendo era que o pecado acontece primeiro na mente. A mente é a fonte do pecado. os fariseus tinham uma visão comportamental do pecado. Eram legalistas. Só viam o pecado como ação, não como pensamento. Então Jesus "pegou pesado" com eles. Pra mim, o olho é pior que a mão. É o olho que representa a mente, o modo de ver, o modo de pensar. Jesus estava batendo forte contra o comportamentalismo deles. Além disso, pode-se masturbar e chegar ao orgasmo, sem pensar bobagem, só em busca de um prazer, de uma gratificação pessoal. O texto diz "mão direita", como ficaria o pecado dos canhotos? Pra mim, "olho" aí, significa modo de ver, de pensar e "mão", modo de agir. Se vc continuar lendo, verá que no verso 31 Jesus retorna ao assunto do verso 27, que é o adultério. Um adultério é o quê? É deixar a esposa e trocá-la por uma amante, prostituta, ou um "caso passageiro". No tempo de Jesus, repudiava-se a mulher por razões muito frágeis, que pareciam "legítimas" na aparência, mas na essência o repúdio era causado pelo adultério, pelo desejo acariciado de possuir outra mulher. Jesus advertiu-os de que a mão faz o que os olhos, a mente alimenta. Jesus poderia pegar os pés e dizer: "Se teu pé te faz tropeçar, corta-o." Porque são os pés que levam o homem para caminhos de morte. São eles que conduzem para o pecado. Não vejo necessidade e nem problema de se ver aí o problema da masturbação, mesmo porque dá pra masturbar-se sem usar as mãos. Basta esfregar-se num travesseiro ou almofada, por exemplo.

Você levantou uma questão que pode ter razão, mas não temos todas as condições de afirmar positivamente. Jesus não acrescentou nada no contexto que se referisse à masturbação, a não ser a referência ao adultério. Portanto, faça uso dessa interpretação, mas com muito cuidado, para não levantar esse assunto diante de um auditório ou pessoas não preparados, ou em momentos inadequados.

Que Deus o abençoe, e lhe dê sabedoria,

Um abraço,

Twitter: @Valdeci_Junior

Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
A Bíblia apresenta uma moral sexual diferenciada. Mas e na prática dos que seguem a Bíblia, como tem sido? Em que aspecto a sexualidade dos crentes evangélicos e protestantes tem realmente estado diferenciada da sexualidade das demais pessoas?

domingo, 3 de julho de 2011

Em Busca de Identidade


Pastor, como sua igreja passou a ter as doutrinas que tem hoje? Quando a igreja foi fundada já foi estabelecida com todas as atuais doutrinas, como estão? Ou elas foram se desenvolvendo aos poucos? Se foi o caso, em tal desenvolvimento foi tudo um "mar de rosas", ou houve tensões?

Eu tenho o prazer em compartilhar com você sobre esta história interessante. Mas não vou fazer isso sozinho. George Knight, em seu livro "Em Busca de Identidade", responde a esta pergunta, melhor do que qualquer outra pessoa o faria. Portanto, abaixo, segue para você a "isca". Pegar o peixe ou não, é contigo.

“EM BUSCA DE IDENTIDADE”
“O desenvolvimento das doutrinas adventistas do sétimo dia”
Resenha Crítica

Identificação do Livro
Sobre o Autor


O historiador americano George Raymond Knight, aos seus setenta anos, ainda é um efetivo palestrante, em diversas partes do mundo. Ele compartilha sua experiência de ter acompanhado e pesquisado a fundo acerca da história dos adventistas do sétimo dia. Em março deste ano, ao assistir pessoalmente algumas de suas palestras em um encontro internacional de pastores, pude comprovar que ele realmente tem um conteúdo fantástico a transmitir.
Knigth foi arrancado do agnosticismo em 1961, pelos pregadores Vance Ferrell e Ralph Larson. Mas seu currículo tem uma longa trajetória, desde que adquiriu seu bacharelado no Pacific Union College, seu mestrado em divindade na Adnrews University e finalmente seu doutorado na universidade de Houston, em 1976. Hoje, é um cristão apologista. E isto lhe trás uma visão bifocal. Em tudo que já escreveu, demonstra ser um apaixonado membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), mas, ao mesmo tempo, ter consciência das crises que esta igreja já enfrentou.
Depois de ter ensinado no seminário de teologia por mais de trinta anos, atualmente, este professor emérito da Andrews University (Berrien Springs, Michigan) é aposentado, mas continua, também, escrevendo. Em sua experiência de vida como escritor, já lançou mais de trinta livros sobre educação, religião e história. Diversos destes números têm sido traduzidos e editados em dezenas de países. Atualmente, ele mora em Oregon, EUA, onde está trabalhando na edição de um grande comentário bíblico devocional.
Descrição do Conteúdo
Neste livro, George Knight (GN) faz uma exposição histórica de como as doutrinas da Igreja Adventista do Sétimo Dia foram formadas. Pessoas, debates, controversas, reavivamentos, reformas, aventuras, desânimos e vitórias fazem parte desta narrativa. Em oito capítulos, o leitor é levado a olhar para o tempo como uma passarela na qual um movimento mundial significativo segue um rumo certo. GN não usa de parcialidade ao descrever até mesmo as turbulências deste desenvolvimento.
No primeiro capítulo, ao falar sobre “A Natureza Dinâmica da ‘Verdade Presente’”, alguns mitos são desfeitos. Muitos olham para os adventistas como são hoje e pensam que eles sempre foram assim. Se esta igreja existe para defender a verdade, por não ser dona da verdade, sempre teve, desde seu estado embrionário, a pré-disposição de ser dinâmica no aprendizado e na prática do que Deus revela ao ser humano.
Portanto, a noção básica das características deste desenvolvimento em constante mudança é dependente do conhecimento de duas coisas: o que existia antes da concepção do adventismo e como foi o seu nascimento. O leitor começa inteira-se destes pressupostos no segundo capítulo: “O Adventismo Não Nasceu no Vácuo”.
 “O Fundamento Teológico dos Mileritas” (este é o terceiro capítulo) também estabeleceu uma coleção de conceitos filosóficos e teológicos definitiva para talhar o que viria a ser, no futuro, a IASD. No começo do século dezenove, o denominacionalismo norte americano era influenciado por várias correntes de pensamento. Os anabatistas, os restauracionistas, os metodistas, os deístas, os puritanos, os baconistas e outros montavam um cenário de interesses bíblicos inovadores. E foi neste contexto que os mileritas surgiram. Eram todos os que criam na iminência do segundo advento de Cristo naquela geração.
O grande desapontamento que aquelas pessoas sofreram em 1844 levantou um grande questionamento: “O Que é Ser Adventista no Adventismo? (1844-1885)”. E neste quarto capítulo, GN descreve as diferentes inquietações que os adventistas tiveram e como buscaram suas respostas dentro da Bíblia. Foi neste período que a organização institucional e a base teológica dos adventistas do sétimo dia surgiram. As maneiras como crêem na volta de Jesus, no ministério celestial de Cristo, no ensino bíblico sobre o sábado e na natureza mortal do homem definiram tal teologia. Nascia então a primeira identificação formal e visível dos adventistas do sétimo dia.
“O Que é Cristão no Adventismo? (1886-1919)”. Ironicamente, apesar de fazer parte do cristianismo moderno, a IASD parecia estar perdendo sua identidade de denominação cristã. O quinto capítulo do livro descreve o “Cenário Para a Discórdia (p91)”.  No palco, predominaram duas super ênfases: a) nas crenças distintivas da igreja, em detrimento da pregação cristocêntrica; e b) na tendência errônea de olhar mais para a mensagem de Ellen White do que para a bíblica. Mentalmente, o leitor é levado para Mineápolis, Minnesota, para assistir as reuniões de uma assembléia da Associação Geral de 1888. O que aconteceu ali levou os adventistas, pelas décadas seguintes, à busca de sua identidade cristã.
Enquanto isso, o mundo protestante estava em tensão com o pensamento moderno. Nesta crise, nasciam as identificações do modernismo e do fundamentalismo protestantes, levando de carona o adventismo a perguntar-se sobre “O Que é Fundamentalista no Adventismo? (1919-1950)”. Fundamental para este meandro eram as escolhas que os adventistas fariam dos modos de interpretação da revelação e da inspiração concedidas de Deus ao ser humano. Ao fazer isso, definiriam sua confirmação em mais crenças fundamentais bíblico-cristãs. Mas isto teria o preço de criar projéteis condutores de várias dissidências belicosas, de pessoas que optam por não acompanhar a mudança que o crescimento do conhecimento teológico ocasiona.
Estes dissidentes estariam, em sua ótica, na busca pela pregação e prática de um adventismo melhor por ser histórico. Outros estariam enfocados em buscar pelo que realmente significou tudo o que aconteceu em 1888. Paralelamente, se levantam competitivas discussões sobre o papel e a autoridade dos escritos de Ellen White para os adventistas. E ainda polarizam-se os que defendem diferentes teorias sobre como Deus inspira os profetas para revelar-Se. Amadurecida e bem definida em suas crenças fundamentais, a IASD entrou para o século vinte vendo-se obrigada a saber conviver com isto que GN denomina no sétimo capítulo de “O Adventismo em Tensão Teológica (1950-    )”.
“O Que Tudo Isso Significa?” Este oitavo e último capítulo, além de mostrar o significado do que vem a ser a IASD, traz pelo menos três preciosas lições ao leitor: a) Fazer teologia para rebater outra teologia não leva a nada. Os que fizeram isso só causaram confusão. A simples busca pelo que a Bíblia tem a revelar sempre foi mais edificante. b) A rigidez de um credo inflexível leva ou a vãs tradições, ou a conflitos separatistas. O melhor é ser aberto a sempre crescer no conhecimento de Deus. c) Os adventistas têm crenças distintas e crenças comuns em relação aos demais cristãos. Para saber viver bem com esse duplo aspecto, é preciso equilíbrio. A melhor identificação dos adventistas sempre esteve e continuará em Apocalipse 14:12.
Propósito da Obra
Knight nos esclarece que este livro “examina o desenvolvimento histórico da teologia adventista. Conforme expresso no título, o livro considera essa expansão como a busca contínua por uma identidade” (p10). Como a história desta busca também contém uma série de tensões, o autor procura responder “as perguntas e questões provocadas pelas várias crises enfrentadas pela denominação ao longo do tempo” (p11).
“Tentei tratar do tema o mais breve possível”, comenta GN na mesma página introdutória da obra. Mesmo assim, ele consegue mostrar “que os pioneiros adventistas criam que a ‘verdade presente’ era dinâmica (e não estática) e que podia ser alterada à medida que o Espírito Santo conduzia a igreja em seu Estudo da Bíblia” (p11-12). Esse é o foco que o leitor precisa enxergar, pois
“o adventismo moderno adota o mesmo ponto de vista. Por outro lado, certas crenças fundamentais adotadas pelos adventistas são tão básicas que definem o próprio adventismo e não poderiam ser alteradas sem criar uma corporação religiosa inteiramente diferente. Nesse sentido, a história da teologia adventista é uma história de contínua transformação no contexto da estabilidade.
“Em Busca de Identidade é a primeira tentativa de fornecer uma visão abrangente do desenvolvimento da teologia adventista” (idem).
De acordo com Neal C. Wilson, ex-presidente da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia (1979-1990), este livro reforça o fato de que esta igreja “é um movimento profético com uma mensagem profética e uma missão profética” (Wilson, p8). Anteriormente, Wilson já havia comentado que GN, ao revelar a trajetória da IASD, expõe “uma jornada repleta de perigos ocultos, desvios doutrinários sutis e perigosas ciladas. Sua pesquisa levanta muitas questões desconcertantes, mas legítimas, e apresenta respostas satisfatórias” (Ibid., p7).
“Acredito que Em Busca de Identidade ajudará os leitores a compreender melhor a teologia adventista e seu desenvolvimento histórico”, resume o autor no final de sua nota introdutória ao livro, na página treze.
Fontes
Na nomenclatura usada em metodologia histórica, existem as fontes primárias e as fontes secundárias. As fontes primárias são os documentos diretamente relacionados com o objeto do estudo do autor. Por exemplo, se ele vai escrever uma biografia, as fontes primárias seriam os documentos pessoais do biografado, as entrevistas com ele, as correspondências escritas por ele, os sermões produzidos por ele, os artigos escritos por sua autoria, seu diário, etc. Já as fontes secundárias, nesse caso, seriam tudo que outros que não vivenciaram com o indivíduo teriam citado sobre ele. Um exemplo de fontes secundárias nós podemos ver na edição do evangelho de Lucas. O autor bíblico diz: “eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo”, “conforme [os fatos que] nos foram transmitidos por aqueles que desde o início foram testemunhas oculares e servos da palavra” (versos 3, 1 e 2). Mas vale observar que a revelação do Espírito Santo a Lucas inspirando-lhe a escrever foi uma fonte primária.
George Knight, na obra Em Busca de Identidade, escreve a história da vida teológica de uma igreja. Um historiador, ao autorar um livro histórico como esse, sempre usa fontes primárias e fontes secundárias. É importante usar os dois tipos de fontes. Pois, se ele desconhecesse as fontes primárias, correria o risco de distorcer os fatos; e se desconhecesse as fontes secundárias, poderia apresentar um relatório desatualizado. No caso de GN, quase que poderíamos dizer que, como ele domina o assunto, e como é uma autoridade respeitada em tal matéria, ele próprio seria a fonte. Mas a documentação é importante. Enquanto vai contando a história, o próprio texto do livro vai apresentando de onde as informações foram tiradas, tanto de documentos diretos dos arquivos da igreja, quanto de outros autores que escreveram sobre a IASD.
Pontos Fortes e Pontos Fracos
O livro realmente alcança os objetivos propostos que descrevemos acima. Quando terminei de ler o mesmo, minha reação foi esta satisfação de que a suma que pude reter foi exatamente o que o prefácio e a nota ao autor propuseram-me no início da leitura. Além de capacitar-me a responder a muitos questionamentos quanto à história da IASD e de derrubar muitos mitos eclesiásticos que eu tinha em mente, percebi que Em Busca de Identidade foi honesto em mostrar-me uma cara mais autêntica do adventismo. E além de ter sido um material de leitura, agora poderá continuar ajudando-me com uma fonte de consulta, pois, em sua parte final, tem um ótimo índice remissivo.
Entretanto, apesar de ter uma boa redação, neste livro, GN perdeu a oportunidade de desenvolver seu texto em uma linha cronológica mais definida. Se um livro se propõe a contar uma história, deveria contá-la em sequência, e não indo e vindo com tantas nuances irregulares. Ao ler, enquanto tentava mentalizar a linha do tempo, eu tinha a sensação de que estava dentro de um ônibus coletivo num centro urbano bem desorganizado, quando você anseia por pegar uma reta, mas isso nunca acontece. Mas depois a reta aparece, pois essa confusão concentra-se mais na primeira parte do livro, somente.
Se os capítulos tivessem tamanhos mais parecidos, e fossem menores, também teriam uma didática melhor. O livro tem uns capítulos muito grandes e outros muito pequenos.  Creio que o autor não foi feliz na escolha do subítulo. Eu escrevia algo como “um breve relato de alguns pontos relevantes na história do desenvolvimento da teologia adotada pelos adventistas do sétimo dia”.  Já mencionei alguma coisa sobre como GN usa as fontes. “As notas de referência foram inseridas no texto e são tão breves quanto possível (p13). ”Apesar de confiar no autor, creio que sua falta em documentar é grave no sentido de não ajudar o leitor a continuar pesquisando. Uma bibliografia mais completa forneceria dados suficientes para que outros seguissem estudando o assunto mais a fundo.
Público Alvo
“A obra é erudita, informativa, estimulante e instrutiva” (Wilson, p7). Em Busca de Identidade, ao mesmo tempo que consegue satisfazer a busca de conhecimento de um estudante, não é uma obra acadêmica, mas sim, popular. Contribui para a comunidade acadêmica com informações, mas não com bibliografia. Comentando sobre todos seus livros desta série sobre o legado adventista, GN argumenta: “embora eu tenha escrito tendo em mente leitores adventistas, os livros também procuram apresentar uma sólida introdução de seus respectivos temas à comunidade em geral”. Serve para os adventistas saberem “quem somos nós” e para os não-adventistas saberem “quem são eles”.
Para os que amam e defendem a IASD, esta obra é uma ferramenta apologética de primeira mão. Para os que têm dúvidas quanto à idoneidade desta igreja, o livro Em Busca de Identidade também é útil. Portanto, acho que este livro é para todos os cristãos que têm senso histórico. Espero que esta resenha crítica seja importante para servir como um instrumento que lhe ajude a fazer uma abalizada avaliação quanto à possível aquisição, ou não, do livro Em Busca de Identidade. Eu recomendo esta obra.
Um abraço,
Twitter: @Valdeci_Junior


Leia mais sobre o ensino bíblico da Trindade em: Trindade clicando aqui.

Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
Já pesquisei muito sobre um questionamento que tenho, mas ainda não encontrei um comentário bíblico que me responda. A pergunta é: "Se o assunto do texto de Mateus 5:28 até Mateus 5:32 é adultério, o que este verso da "mão", o verso 30, está fazendo aí?". Sabe pastor, é que  pra mim, este verso faz parte do assunto, da moral, da cobiça sexual e do pecado sexual que o indivíduo pratica solitariamente. Portanto, o que consigo ver neste verso, é uma alusão clara à masturbação. Parece-me que as regras hermenêuticas que aprendi, mais apóiam do que desapontariam esta interpretação. Mas eu nunca encontrei ninguém interpretando este verso assim. Daí eu fico me questionando, se estou fazendo uma "eixegese". O que o senhor acha? Se você já leu algum comentário ou trabalho sobre isto, e puder indicar-me, ficarei grato.