terça-feira, 20 de maio de 2014

Comeback Churches: Igrejas Em Retorno

COMO 300 IGREJAS RETORNARAM AO IDEAL DE DEUS.
E como a sua também pode!

Na quarta seção da obra The Book And The Student[1], o doutor em teologia Otoniel Ferreira apresenta um estudo[2] que mostra reflexões sobre o tempo de vida das igrejas[3]. Como todo organismo vivo, tanto congregações quanto denominações tentem a nascer, crescer, reproduzir-se e, infelizmente, morrer[4]. E os aspectos mortuários em uma igreja que os possui podem ser identificados facilmente[5]. Mas, fatalmente, existem muitas igrejas morrendo sem que seus próprios membros percebam[6]. É possível evitar o estado de EQM (Estado de Quase Morte) eclesiástica, como ensinado por exemplo no livro “Igreja Simples”[7]. Mas depois que uma igreja já entrou em processo de morte, não se trata mais de evitar a morte, mas de retornar à vida. E aí o processo é bem mais complexo, e de menor probabilidade (quase zero) de sucesso. Mas o impossível, com Deus, pode acontecer.

Tive o privilégio de ser aluno do pastor Otoniel, em aulas onde ele nos ensinou que as igrejas morrem a menos que recebam vida extra[8]. E não como num jogo de vídeo-game, Ferreira ensinou a nós alunos sobre como este plus pode acontecer na prática do pastoreio eclesiástico. Ou seja, é possível evitar o inevitável[9]! Mas uma vez que não há como transcrever todas as aulas que tivemos com Ferreira, aqui nesta postagem apresento um resumo da obra de dois autores que usamos na classe, que trabalham o assunto. Na obra cujo título em Português poderia ser “Igrejas Em Retorno”[10], Ed Stetzer e Mike Dodson mostram como 300 igrejas retornaram ao ideal de Deus, e como a sua também pode passar pela mesma experiência.

Em primeiro lugar, estudar as igrejas que retornam é relevante porque as estatísticas são alarmantes. E como estudiosos e executores do assunto, nosso objetivo deve ser ajudar as igrejas a se resconstruírem de sua queda, através de princípios bíblicos e aprendendo com as experiências dos outros. Portanto, o ponto inicial está na pergunta: “Quais são os princípios usados por essas igrejas que retornam, que poderiam ajudar pastores e igrejas em declínio a se revitalizarem?”.

O método de estudos e Stetzer e Dodson foi examinar 324 igrejas que retornaram e que experimentaram renovações e crescimento após um período de declínio. Nestas igrejas, havia aumentado o número de membros e o número de batismos. Neste exame, usaram pesquisas comunitárias e entrevistas por telefone. E os critérios usados para selecionar, de milhares de igrejas, as igrejas que seriam classificadas como igrejas que retornam, para cada uma delas, foram: 1. Se igreja experimentara cinco anos de estagnação ou declínio desde 1995; 2. Se tal período fora seguido por um significante crescimento nos últimos dois a cinco anos; 3. A relação da quantidade de batismos por membros (conversão); 4. E se a igreja tinha pelo menos 10% de aumento na frequência por ano. Assim, selecionaram três dezenas de igrejas que retornaram.

A primeira característica que destacamos de igrejas que retornam é o seu compromisso com as Escrituras. Todas elas respeitavam a autoridade da Palavra de Deus, tinham uma liderança bíblica, davam ênfase na pregação e no ensino, cumpriam fielmente as ordenanças bíblicas e tinham um pacto comunitário voltado para uma missão bíblica. Ou seja, igrejas que retornam são igrejas bíblicas.

Mas não somente isso. Igrejas que retornam não são somente missionárias, mas são também missionais[11]. Elas fazem o que os missionários fazem, a despeito do contexto. E para isso, os membros das igrejas que retornam são preocupados em estudar e aprender idiomas a fim de tornarem-se parte da cultura e proclamarem as boas novas de Cristo (no caso do contexto onde estou atualmente, estariam buscando aprender Italiano, Francês e Crioulo). Nestas igrejas, a presença das mesmas na comunidade parece representar Cristo no sentido da ação, no sentido de contextualizar a vida bíblica e da prática religiosa para a cultura na qual está inserida. Igrejas missionais são encarnacionais, e predispostas a ser cada vez mais nativas, de forma intencional.

As igrejas que retornam também têm características espirituais singulares. Quando estavam declinando, as barreiras que tinham para o crescimento espiritual eram: a) Líderes focados em si mesmos; b) Pessoas experimentando disciplina de Deus; c) Falta de fé radical; d) Preocupação maior com o “fazer” do que com “ser” a igreja; e) Atitude de regar o Evangelho e a Verdade, em lugar de despejá-los; f) Distração do primeiro amor; g) Discipulado ineficiente; h) Ministério irrelevante; e i) Orgulho.

Quanto à administração, enquanto estavam estagnadas eram “Dirty Bakers Dozen Churches”: Igrejas Mal Dirigidas. a) Institucionalizadas; b) De associação voluntária; c) Não-intencionais; d) Exclusivistas (“us four and no more” - “nós e ninguém mais”); e) Desacreditadas (“we can’t compete” - “não podemos competir”); f) Acomodadas (“decently & in order” – “aceitável”); g) Descontextualizadas (“uma peça quadrada em  um buraco redondo”); h) Entrelaçadas; i) Inflexíveis (“my way or the highway” - minha maneira, ou nada feito); j) Com ministério voltado para os membros (capelania); k) Burocráticas (empresa); l) Seguras demais (sem riscos)[12].

Entretanto, mesmo com tantos traços de EQM, tais igrejas retornaram. Como? Em uma igreja que consegue retornar, muitas vezes o líder tem que decidir em um curso de ação: agindo nem que seja silenciosamente (Neemias 2:11-18), por um tempo. Depois deste tempo, é preciso que o restante dos lideres também se tornem em uma liderança proativa e com positividade (1Timóteo 3:1). E na sequência, as pessoas têm que fazer parte do processo de retorno (Atos 6:1-5).

Enfim, crescendo como liderança, os líderes de igrejas que retornam a) Tomam a iniciativa para mudança; b) Desafiam as desculpas; c) Transformam as desvantagens em dez vantagens; d) Oram (Mateus 9:37-38) regularmente e apaixonadamente; e) Observam a colheita (Mateus 9:36-38); f) Modelam a paixão evangelística; g) Compartilham o ministério; h) Escolhem como investir seu tempo; i) Dispensam as tarefas que não são ministeriais; j) Usam seu tempo intencionalmente; k) Comunicam uma visão clara e persuasiva; l) Líderes de igrejas que retornam multiplicam-se; e m) Gastam mais tempo com “pessoas” -  especialmente aqueles que trabalham com eles, em sistema de “coaching”[13].

Nas igrejas que retornam a adoração e a pregação são importantes. Na valorização do culto e da adoração das igrejas que se reconstruíram, foi verificado que 96% dos louvores são celebrativos e acontecem ordenadamente. Se você parar de longe pra ouvi-los cantar e proclamar palavras de adoração, facilmente percebe que, ao ouvir suas vozes, através do exame de seus louvores, pode-se descobrir a paixão por Deus e pela missão de Cristo. Estas igrejas que se reconstituem são totalmente diversas em estilo, mas geralmente são igrejas mais contemporâneas do que tradicionais.

Quanto aos princípios de evangelismo, veja o que os líderes das igrejas que milagrosamente ressuscitaram declararam: “Nossa maior motivação para evangelismo é nosso próprio relacionamento com Deus”; “Vivemos como mensageiros de Deus neste mundo”; “Nos organizamos para o evangelismo usando múltiplos métodos”; “Para ganhar a comunidade é necessário toda a igreja estar envolvida”; Toda a igreja tem que abraçar o mandato (ordem) do evangelismo”; “Criamos no ambiente uma atmosfera em que o planejamento do evangelismo toma o seu lugar espontaneamente”; “Reconhece-se, planeja-se propositalmente portas de entrada para novos membros a Igreja”. Não preciso comentar mais nada.

O que já descrevemos até aqui, tem que ver com fatores que conectam pessoas. Pessoas precisam comunidade; pessoas precisam estabilidade; pessoas precisam comprometimento; pessoas precisam de disciplina. Por isso, se você intenta reanimar os sinais vitais de uma igreja, vocês têm que seguir se conectando através do método de um tipo de Pequeno Grupo, que: a) reconhece e responde pela necessidade bíblica e a unidade da comunidade; b) tem uma estrutura que pode ser aproveitada para identificar e treinar líderes; c) adiciona, substitui e inicia novas classes ou células cognitivo-relacionais, criando mais espaço para se expandir o próprio numero de pequenos grupos; e d) Move-se devagar e deliberadamente, delegando poder aos pequenos grupos e seus líderes.

Observe, na figura ao lado, os três grandes fatores determinantes para que uma igreja junte o que sobrou de suas ruínas e se reconstrua. Este quadro demonstra, em média, a maneira com que cada uma das trezentas igrejas de segunda vida gastava seu tempo. Tradicionalmente, se cronometrarmos (e não se teorizarmos),
gastamos mais tempo com sermões, em seguida menos tempo com ações evangelísticas e por último, uns poucos minutos de joelhos. Nesta quebra de paradigmas, a maior parte do tempo na igreja é gasto com os joelhos no chão. Em segundo lugar, grande parte do tempo é usada em atividades evangelizadoras. E por último, a pregação também ocupa um lugar no tempo, mas em menor quantidade que as outras duas ocupações.

Isto deve nos levar a uma profunda reflexão sobre como estamos fazendo igreja. Voltando a falar do artigo de Ferreira que citei no início do primeiro parágrafo desta postagem, precisamos nos lembrar de que as igrejas são organismos vivos que nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, a menos que recebam vida extra, fora do curso normal que as espera! E não como num jogo de vídeo-game, mas na sensibilidade do relacionamento divino, Ferreira ensina como esse plus acontece: Oração! Não somente no discurso, mas na prática. No artigo de Ferreira, “diferentes abordagens de oração são examinadas”, na sugestão de que sem um ministério efetivo em oração e sistematizado pela oração, a igreja fatalmente morre. É sobre como efetivar e sistematizar este tipo de  ministério que Ferreira foca-se, ensinando, na prática, as diferentes atividades de oração que precisam ser aplicadas no tempo em que a igreja acontece[14].

Espero que você já pegue as dicas deste presente resumo de Comeback Churches e aplique em sua igreja, para que ela esteja livre da morte enfim. Mas posteriormente, também pretendo traduzir e postar o capítulo de Ferreira de The Book And The Student aqui na Sala. Continue acompanhando esta[15] e outras postagens, e quando os ensinos sobre a oração de Ferreira também estiverem disponíveis aqui na Sala, aplique-os, também.

Que Deus abençoe a você e sua igreja.

Um abraço cristão no fundo do seu coração,

Pr. Valdeci Jr.




[1] Kuhn, Wagner, editor, The Book And The Student - Theological Education As Mission: A Festschrift Honoring José Carlos Ramos (Berrien Springs, MI: Mission Department, Andrews University. 2012), 346 pages.

[2] Ferreira, Otoniel. Reingniting the Life Cycle of Pleateauing Churches, em Kuhn, Wagner, editor, The Book And The Student - Theological Education As Mission: A Festschrift Honoring José Carlos Ramos (Berrien Springs, MI: Mission Department, Andrews University. 2012), páginas 289-311.

[3] Silva Jr., Valdeci Gomes da. The Book And The Student: O Livro e o Estudante, http://www.nasaladopastor.com/2012/09/the-book-and-student-o-livro-e-o.html

[4] Rainer, S. Thom. Autopsy of a deceased church: 12 ways to keep yours alive (Nashville, Tennessee: B&H Publishing Group, 2014).

[5] Silva Jr., Valdeci Gomes da. Esse Defunto Sou Eu? http://noticias.adventistas.org/pt/coluna/valdeci-junior/esse-defunto-sou-eu/

[6] Rainer, S. Thom. Autopsy of a deceased church: 11 Things I learned.  http://thomrainer.com/2013/04/24/autopsy-of-a-deceased-church-11-things-i-learned/

[7] Rainner, S. Thom & GEIGER; Eric. Igreja simples: retornando ao processo de Deus para fazer discípulos. Brasília, DF: Palavra, 2011.

[8] Ferreira, Otoniel, Análise Multidisciplinar da Cidade., Aulas Para o Mestrado em Missão Urbana em junho de 2013 no Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, Campus das Faculdades Adventistas da Bahia.

[9] Rainer, S. Thom, Breakout Churches: Discover How to Make the Leap (Grand Rapids, Michigan, Zondervan , 2005) 259 pages.

[10] Stetzer, Ed & Dodson, Mike, Comeback Churches:How 300 Churches Turned Around And Yours Can Too. (Nashville, Tenesssee, B & H Publishing Company, 2007) 260 páginas.

[11] Veja mais sobre o que é uma igreja missional a partir de Silva Jr., Valdeci Gomes da. http://www.nasaladopastor.com/2013/07/o-que-e-uma-igreja-missional.html.

[12] Ver video “Igreja Bote Salva Vidas” em https://www.youtube.com/watch?v=K5mkCOQ6wrI.

[13] Ferreira explica que “Coaching é uma excelente técnica para ajudar pessoas identificar e desenvolver as qualificações requeridas para uma liderança efetiva, mas em um nível pessoal. Também ajuda a compreender e desenvolver-se através de sua própria e única força”.

[14] Parte deste ensino pode ser encontrada também em FERREIRA, Otoniel de Lima. 21 dias de poder: preparando a igreja para buscar e salvar o perdido. Maringá: Gráfica Regente Ltda, 2012, apontado em Silva Jr., Valdeci Gomes da. http://www.nasaladopastor.com/2013/03/21-dias-de-poder.html

[15] Quando traduzir e postar o artigo de Ferreira, avisarei aqui nos comentários desta postagem.

Um comentário:

  1. Táqui o cumprimento da promessa: http://www.nasaladopastor.com/2014/05/reacendendo-o-ciclo-de-vida-das-igrejas.html - A tradução que fiz de Ferreira prometida na nota de rodapé (15) acima.

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