domingo, 27 de julho de 2014

Parábola do Rico e Lázaro - Lucas 16:19-31

Alguns pensam que a história contada por Cristo, do rico e de Lázaro, prova a imortalidade da alma. (Veja-se S. Lucas 16:19-31).

Esta história nada diz sobre almas imortais partindo do corpo dos mortos. Ao contrário, o rico após a morte tinha "olhos" e "língua", isto é, partes muito reais do corpo. Ele pedira que Lázaro "molhasse na água a ponta do seu dedo". Se a narrativa deve ser tomada literalmente, então os bons e maus, após a morte, não se transformam em espíritos intangíveis, mas vão para lugares da sua recompensa como seres reais, na posse de seus membros. No entanto, como poderiam eles ir para lá em corpo, uma vez que este havia sido inumado na sepultura?

Ainda, se isto é um relato literal, então o céu e o inferno se encontram bastante próximo para permitir uma conversação entre os habitantes de ambos os lugares - situação um tanto indesejável, pelos menos.
Se os que crêem na imortalidade inerente pretendem que esse seja um quadro literal da geografia do Céu e do Inferno, devem então aceitar também literalmente o texto referente às "almas debaixo do altar" clamando por vingança contra seus perseguidores. (Veja-se Apocalipse 6:9-11). Se os justos podem ver os ímpios em tortura, que necessidade têm de clamar por vingança?

Quando o rico pediu que a Lázaro se mandasse voltar à Terra a fim de avisar a outros quanto ao inferno, Abraão respondeu: "Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos". E: "Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite". (Vs. 29 e 31). A narrativa, portanto, em parte nenhuma fala de espíritos desincorporados, nem que voltem para avisar os homens. Ao contrário, quando fala nessa volta usa o termo "ressuscitar".

A fim de evitar a crença de que os espíritos têm corpos e que o Céu e o inferno estão realmente bastante próximos para permitir uma conversação, porventura deseja o arguente considerar agora essa narrativa uma mera parábola? Neste caso lembrá-lo-íamos de que os teólogos unanimente concordam em que não se podem alicerçar doutrinas sobre parábolas ou alegorias. Uma parábola, como outras ilustrações, é geralmente usada para tornar claro um determinado assunto. Procurar formar doutrinas de qualquer porção da narrativa resultaria em absurdo, ou mesmo perfeita contradição. É fora de dúvida que procurar na ilustração a prova para uma crença que seja o extremo oposto da que defende o próprio autor da ilustração, seria violar os mais rudimentares princípios que regem o assunto.

Nós afirmamos que o argumentador, ao usar esta parábola para provar que os homens recebem sua recompensa ao morrer, coloca Cristo em situação de contradizer-se a Si próprio.
Em outra parte Cristo declara explicitamente qual o tempo em que os justos receberão sua recompensa e os ímpios serão lançados no fogo consumidor: " E quando o Filho do homem vier em Sua glória ... todas as nações serão reunidas diante Dele;... então dirá o Rei aos que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de Meu Pai, possuí por herança o reino... Então dirá também aos que estiverem à Sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". S. Mateus 25:31-41.

Não há necessidade que volte alguém para dar aviso sobre o destino depois da morte, porque os vivos "têm Moisés e os profetas; ouçam-nos".
Nós, os vivos, somos portanto certamente justificados em compreender a parábola em harmonia com o que os profetas têm dito. Malaquias, por exemplo, declara que "aquele dia vem" (é um acontecimento futuro) em que os ímpios sofrerão os tormentos do fogo abrasador. (Veja-se malaquias 4:1-3.)  Os escritos do Velho Testamento são muito explícitos em afirmar que os mortos, justos ou ímpios, descansam em silêncio e inconsciência na sepultura até o dia da ressurreição (Vejam-se Jó 14:1, 12-5, 20 e 21; 17:13, 19:25-27; Eclesiastes 9:3-6 e 10).

Portanto, se o argumentador passa a declarar ser a história uma parábola ou alegoria, isso não vem mais em seu auxílio do que se a tomasse como sendo literal, a não ser que queira manter a pretensão insustentável de que uma determinada porção de um relato figurado deva ser tomada literalmente, embora represente isso uma contradição direta às afirmações literais de "Moisés e os profetas" e Cristo (em S. Mateus 25).
A história é uma parábola, tendo sido este o método usualmente empregado por Cristo nos Seus ensinos, muito embora aqui como em vários outros exemplos, Ele não afirme isso especificamente. Por isso procuramos saber justamente qual a lição que Cristo pretendia ensinar, e não tentamos fazer com que a parábola prove qualquer coisa além disso. Evidentemente, Cristo estava desejoso de repreender os fariseus, "que eram avarentos". S.Lucas 16:14. Eles, em verdade bem como muitos dos judeus, mantinham a crença de que as riquezas eram um sinal do favor de Deus, e a pobreza um indício do Seu desagrado. Cristo ministrou-lhes a importante lição de que a recompensa que aguarda os ricos avarentos - os quais nada mais reservam para os pobres do que migalhas de pão - é justamente o oposto ao que os judeus acreditavam.
Isto é o que a parábola pretende ensinar. Seria tão incoerente pretendermos que Cristo ensinasse por ela que os justos fossem literalmente para o "seio de Abraão", e que o Céu e o inferno estivessem a uma distância ao alcance da voz, como deduzirmos que Ele ensinasse ser a recompensa concedida imediatamente após a morte. Cristo protegeu esta lição que estava ministrando aos judeus, contra a dedução de conclusões errôneas, apresentando-a em forma de uma história.

Ao empregar a linguagem alegórica bem podia Ele apresentar os inconscientes mortos mantendo uma conversação, sem forçar a conclusão de que os mortos estivessem conscientes. Em outra parte da Bíblia encontramos a vívida parábola das árvores que "foram uma vez a ungir para si um rei" e mantiveram entre si uma conversação. (Vejam-se Juízes 9:7-15; II Reis 14:9). Por que não tentar provar por essa parábola que as árvores falam e que elas têm reis? Não, isso seria querer fazê-la provar mais do que era a intenção do autor. Concordamos. A mesma regra aplica-se à parábola do rico e Lázaro.


A vida eterna é uma realidade unicamente em Cristo Jesus. Qualquer tipo de vida ou fagulha de imortalidade sem Cristo é pretensiosa, pois só Deus é imortal (I Tim. 6:16).

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