terça-feira, 27 de novembro de 2012

O PENTECOSTALISMO MODERNO NA PAROUSIA


Introdução
Jorge Lucien Burlandy

O pentecostalismo tem atraído a milhões de pessoas comuns que se veem tentadas a se tornarem seus adeptos. Mas este movimento religioso também tem despertado a atenção de muitos pesquisadores, tanto apologistas quanto críticos. Uma reunião de teólogos dissertando sobre este assunto pode ser vista na revista Parousia do primeiro semestre de 2000, sob a coordenação do então diretor de seminário teológico, Jorge Lucien Burlandy. Por tratar-se de um periódico acadêmico, além de trazer os ricos textos sobre o referido assunto, também disponibiliza ao leitor uma rica lista de referências bibliográficas e notas elucidativas.

O Movimento Pentecostal no Brasil: Breve Análise Histórica e as Principais Razões Para o Seu Crescimento
Edilson Valiante

O então professor de teologia sistemática no SALT, professor Edilson Valiante, começa com o primeiro capítulo sobre o “Movimento Pentecostal no Brasil: Breve Análise Histórica e as Principais Razões Para o Seu Crescimento”. Sob a perspectiva de Paul Freston, Valiante resume este histórico em três ondas, em cada uma das quais ele destaca o que considera as principais denominações representantes.

Da primeira onda, o professor Edilson faz o resumo histórico da Assembleia de Deus e da Congregação Cristã no Brasil. Da segunda onda, ele destaca a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil Para Cristo”, a Igreja Pentecostal “Deus é Amor” e a Igreja Adventista da Promessa. E da terceira Onda, ele disserta sobre a Igreja da Nova Vida, a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Cristã Apostólica Renascer em Cristo e a Igreja Internacional da Graça de Deus.

Abrindo um parêntese, aqui, é curioso o contraste do pensamento de Mendonça que “considera a Congregação como a primeira igreja pentecostal legitimamente brasileira[i]” com o de Reily que diz que a Igreja Adventista da Promessa, surgida “em 1932 da Igreja Adventista do Sétimo Dia”, é reconhecida como a primeira igreja pentecostal genuinamente brasileira[ii]. Após este resumo histórico, Valiante então procura apontar o que ele considera “as principais razões para o crescimento do movimento pentecostal no Brasil”. Segundo ele,

A complexidade do fenômeno pentecostal torna impossível a tarefa de alinhar todas as possíveis razoes de seu crescimento, ainda mais quando reconhecemos que existem relações causais de interdependência e interpenetração. Além disso, o estudo transpassa o campo meramente religioso, tornando obrigatória uma reflexão interdisciplinar, em áreas como psicologia, história, política e economia.

Como razões psicológicas, Valiante destaca: a) a reação pentecostal “diante da incapacidade das igrejas tradicionais de se tornarem menos estáticas”, com a “recuperação do místico, do emotivo na vida religiosa”; b) a facilidade pentecostal de mobilizar as massas; c) a criação da expectativa “de uma vida melhor, sob a ação do ‘sagrado’”; d) a tendência brasileira da “procura de soluções fáceis a situações complexas”; e) a “democratização do religioso” através de “lideranças autóctones” de “gente do próprio povo que entende suas necessidades”, da “participação mais efetiva do universo feminino” e da informalidade litúrgica; e f) “a formação religiosa do povo brasileiro” que, por quatro séculos, já vivia uma religião de católicos leigos receptores de um simbolismo curandeiro místico folclórico, das tradições informais indígenas e dos panteões e emotividades afros (fatores esses que encontram no pentecostalismo um lugar comum para reunirem-se).
Como razões econômicas, Valiante aponta “que as igrejas pentecostais têm crescido às expensas da crise econômica crônica em que vive o país”, atuando nas lacunas deixadas pela precariedade da saúde pública e do processo constantemente migratório das classes trabalhadoras que se tornam vulneráveis a qualquer tipo de mudança, inclusive a religiosa. Ainda ressalta a ambição pelo negócio próprio que motiva os líderes a promoverem a tal religiosidade e os adeptos a sonharem com as promessas dos mesmos (teologia da prosperidade).

As principais razões relativas ao poder advêm das bancadas evangélicas no legislativo e no executivo, e da utilização da mídia. “Uma igreja com maior força política terá mais poder de fogo nas famosas mesas de barganha”. E o uso dos “meios de comunicação de massa” na “concorrência... por pontos no Ibope. Isso é poder”.

Valiante conclui dizendo que “a valorização da experiência sobre a crença e a ênfase nas emoções sobre a razão parecem oferecer motivos intrínsecos suficientes para o crescimento acelerado do movimento pentecostal”. E nisto, ele vê um cumprimento profético através da “avaliação escatológica do crescimento pentecostal”.

O Dom de Línguas em 1Coríntios 12-14
Gerhard F. Hasel

O segundo artigo de Parousia: Pentecostalismo Moderno é uma adaptação do último capítulo do livro Speaking in Tongues: Biblical Speaking in Tongues and Contemporary Glossolalia, do falecido diretor e professor do seminário teológico da Andrews University, Gerhard F. Hasel, no qual ele analise o dom de línguas em 1Coríntios 12-14.

Após uma introdução na qual visualiza as diferentes possibilidades de interpretação deste trecho bíblico, este Ph.D. descreve o cenário histórico e o contexto nos quais os três capítulos de 1Coríntios 12-14 foram escritos. Depois disso, ele passeia pelas versões bíblicas King James Version, New English Biblie, Bíblia de Jerusalém, New International Version, New Revised Standard Version e Elberfelder Bibel, fazendo, em cada uma destas traduções modernas, uma análise do falar em línguas.

Baseado nisso, Hasel sugere que “não há nenhuma razão terminológica convincente para concluir que a expressão “falar em línguas” em 1Coríntios 12-14 tenha outro sentido, diferente, do restante do Novo Testamento”. Para ele, “não há igualmente nenhuma razão convincente para que o falar em línguas em Corinto refira-se a glossolalia no sentido de fala desconexa de pessoas em êxtase religioso ou algo parecido”.

Para chegar a esta conclusão, Hasel faz uma extensa confrontação do falar em línguas com: a) a língua dos anjos; b) a fala em mistérios; c) a compreensão; d) as religiões helênicas de mistério; e) a edificação da igreja; f) um sinal para os incrédulos; g) a interpretação; h) a profecia; i) a oração; e j) a adoração de forma ordenada. E tal conclusão é a de que o falar em línguas no Novo Testamento era o milagre de conseguir, repentinamente, comunicar-se com pessoas de idiomas estrangeiros, “dado pelo Espírito Santo aos crentes [não todos] com um propósito específico”: a pregação do evangelho.

Teologia da Prosperidade: Breve Análise Crítica
Alberto R. Timm

Como descrito na introdução, “este artigo analisa criticamente os postulados básicos da Teologia da Prosperidade à luz das Escrituras. A primeira parte desta matéria consta de uma breve exposição sobre Malaquias 3:7-12”, observando as maldições e as bênçãos a partir de tal passagem. Maldiçoes decorrentes da infidelidade e bênçãos decorrentes da obediência.

O Ph.D. Timm ao analisar as implicações da teologia da prosperidade, esclarece que esta corrente de pensamento: a) distorce o caráter de Deus; b) apresenta “uma linguagem utópica da existência humana no contexto do grande conflito cósmico”; c) distorce a própria essência dos ensinos de Cristo; d) aplica erroneamente à igreja do Novo Testamento muitas das promessas que eram específicas à prosperidade teocrática do antigo testamento; e e) desvirtua o amplo espectro da obediência cristã.

O resumo é o de que: a) a fidelidade esperada pelas passagens bíblicas que prometem bênçãos é a de guardar os mandamentos de Deus; b) no contexto em que a teologia da prosperidade é pregada tais preceitos são desvirtuados; c) a prosperidade que a Bíblia enfoca não é necessariamente financeira ou material; e d) a verdadeira religião cristã tem pressupostos e propósitos muito mais elevados do que este paradoxal existencialismo que é ao mesmo tempo altruísta e egoísta. Ou seja, uma contrafação da verdade.

Carismas no Século XXI? Análise de Três Teorias Sobre a Existência de Dons Miraculosos na Atualidade
Marcos de Benedicto

Nada melhor do que ler uma análise desta, realizada por alguém que é, ao mesmo tempo,  teólogo, redator e comunicador social. Na realidade, o conteúdo deste artigo de Benedicto é paralelo ao material que já comentei aqui em “Você Acredita em Milagres?”, resenha do livro do mesmo autor, O Fascínio dos Milagres, pois ambos os materiais advêm de sua dissertação de mestrado “O toque da fé: paradigmas bíblicos da cura divina”.

“Este artigo analisa o debate atual quanto à vigência dos dons espirituais miraculosos na igreja”, em especial, na igreja pentecostal. Entre o “sim” e o “não” quanto à veracidade da autenticidade dos milagres, há algumas diferentes “teorias sobre os dons”.

Marcos de Benedicto apresenta primeiro a “abordagem fundacional”, na qual “o pentecostes é único e irrepetível”, “a finalidade dos milagres era autenticar o testemunho dos apóstolos sobre Jesus”, “a igreja primitiva tinha relativamente poucos milagres” e “os milagres anunciavam o fim de uma era e o começo de outra”. Sobre esta teoria, Benedicto destaca seis pontos positivos, mas nela encontra também seis pontos negativos, discordando de que qualquer manifestação miraculosa contemporânea seria falsa.

Na abordagem carismática, “a igreja necessita dos dons-sinais para cumprir sua missão”, “a diferença entre as listas de dons sugere um caráter completo e instrumental”, “a analogia da igreja como organismo corporativo pressupõe que todos os dons são necessários”, “a história registra testemunhos de milagres em fases tardias da igreja”, e “1Coríntios 13 sugere que os dons-sinais prosseguirão até a ‘parousia’”.  Apesar de encontrar seis pontos positivos nesta teoria, Benedicto vê na mesma nove pontos negativos, em especial, a supervalorização exagerada quanto à busca desequilibrada por milagres.

John MacArthur é um dos mais ácidos críticos do carismatismo. Segundo ele, o ministério de cura de Jesus e dos apóstolos tinham seis características que o dos carismáticos não possui. Jesus e os apóstolos: (1) curavam com uma palavra ou toque; (2) curavam instantaneamente; (3) curavam totalmente; (4) curavam todo mundo; (5) curavam doenças orgânicas; e (6) ressuscitavam mortos.

Para Marcos de Benedicto, a teoria que “parece corresponder melhor aos dados bíblicos” é a da “abordagem cíclica”. Os argumentos são os de que: a) “a profecia de Joel parece ter dupla aplicação”; b) “a metáfora das chuvas ‘temporã’ e ‘serôdia’ sugere dois movimentos de ‘refrigério’”; c) “os milagres dos tempos bíblicos aparecem em ‘ondas’”; d) “a ocorrência de milagres diabólicos no fim dos tempos pressupõe milagres divinos”; e e) “o anjo poderoso de Apocalipse 18:1 pode simbolizar um movimento de evangelização”. Apesar de ver dois pontos negativos nesta teoria, nela o autor vê muita lógica, destacando seis pontos positivos, dentre os quais a prudência do equilíbrio espiritual quanto à aceitação dos milagres, e não o ceticismo ou fascínio pelos mesmos.

Ação Evangelística Junto às Igrejas Pentecostais: Refletindo em Termos de Possiblidades
Juan Millanao

Em minha pesquisa de mestrado, estou perseguindo a seguinte pergunta: “Por que muitos pentecostais concordam com as principais doutrinas adventistas, mas preferem permanecer em suas igrejas?” E quem me parece chegar mais perto da preocupação deste problema levantado é Juan Millanao neste artigo, quando escreve sobre ação evangelística junto às igrejas pentecostais. Ele faz uma reflexão em termos de possibilidades missionárias, mas, como Wilson Endruveit em sua monografia em 1976[iii], não discute as diferenças entre os adventistas e os pentecostais quanto ao comportamento, ao modo de pensar e ao que consideram autoritativo para ser adotado como regra de fé e prática.

David Bosh, uma das autoridades mundiais em Missão Urbana, explica que “as razões pelas quais as pessoas se tornam membros da igreja podem variar muito e é possível que, frequentemente, pouco tenham a ver com um compromisso com aquilo que a igreja supostamente defende”[iv]. Se não fosse assim, não haveria pensadores adventistas como Millanao, preocupados em sugerir estratégias para alcançar determinados públicos-alvo, em especial, os pentecostais.

Tais fenômenos são indicadores de que existe algo incompatível no diálogo entre adventistas e pentecostais. E analisar suas diferenças pode ajudar na procura pela identificação desta limitação de comunicação. E nisto foi que vi a validade deste número de Parousia com destaque para esta matéria de Millanao, na qual “o autor, pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia, analisa, desde a perspectiva de uma testemunha pessoal, as possibilidades de influir e ser influenciado pelos membros das igrejas pentecostais em termos do partilhar do evangelho”.

Conclusão

Este é o ponto que faz relevante a necessidade de pensar em nossos irmãos pentecostais como pessoas com as quais devemos dialogar sobre o evangelho de Jesus Cristo. Se você tem este espírito cristão, recomendo-lhe a leitura de Parousia: Revista do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia - Sede Brasil-Sul, Engenheiro Coelho, v. 1, n. 1, p. 19-50, jan-jun. 2000.

Um abraço,

Pr. Valdeci Jr.



[i] “Evolução Histórica e Configuração Atual do Protestantismo no Brasil” em Introdução ao Protestantismo no Brasil, Ed. Antônio Gouveia Mendonça e Prócoro Velasques Filho (São Paulo: Loyola, 1990), 49.
[ii] REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: ASTE, 2003, 365.
[iii] ENDRUVEIT, Wilson Harle. Movimento carismático: um estudo exegético e teológico de suas principais características. São Paulo: Faculdade Adventista de Teologia - Instituto Adventista de Ensino, 1976.
[iv] BOSCH, David J. Missão transformadora: mudanças e paradigma da teologia da missão. Tradução de Geraldo Korndorfer, Luís M. Sander. São Leopoldo: Sinodal, 2007, 497.

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